30 de abril de 2007

Totalmente Kubrick

Totalmente Kubrick



Colour Me Kubrick: A True...ish Story, ING/FRA, 2005. DE Brian W. Cook. COM John Malkovich, Jim Davidson, Richard E. Grant. 86 min. DRAMA/COMÉDIA.

Lançado direto em DVD, Totalmente Kubrick conta a história real de Alan Conway, um homossexual que aplicava golpes e conseguia parceiros sexuais utilizando o nome de Stanley Kubrick, o famoso diretor de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, Laranja Mecânica e um punhado de outras obras primas do cinema. Mesmo com a excelente atuação de John Malkovich como protagonista, não há mais nada que chame a atenção efetiva na película, apesar da premissa parecer bem interessante, e é justamente ela que leva o espectador até o final, onde descobre que acabou de perder seu tempo com um filme nulo, que de Kubrick mesmo, não possui totalmente nada.

por ronald

27 de abril de 2007

Terceiro tiro

O Terceiro Tiro



The Trouble with Harry, EUA, 1955. DE Alfred Hitchcock. COM Edmund Gwenn, John Forsythe, Shirley MacLaine. 99 min. COMÉDIA/SUSPENSE.

Prometo que dessa vez não vou escrever muito, já que da última vez que disse isso, escrevi quatro parágrafos (ver a resenha de 300), enfim, nem ia comentar nada sobre esse filme, mas O Terceiro Tiro é o melhor exemplo que retrata o humor negro de Hitchcock, que é constante em sua filmografia, apesar das sutilezas em que insere esses elementos e do famoso apelido, “Mestre do Suspense”. O filme não é muito comentado por aqui e na época de seu lançamento o publico parece não ter entendido muito o tom que Hitch deu à produção. O fato é que seus filmes sempre focaram a morte como algo difícil e negativo, resultante de um trabalhoso e planejado assassinato. Mas o corpo de Harry estendido no chão logo nos primeiros minutos de forma tão banal e indiferente cria uma atmosfera de mistério muito estranha, algo muito bizarro. Outrora, a morte era símbolo de incontestável horror, mas aqui, é o ponto de partida para uma série de situações que criam laços de relacionamentos, motivo de alegria, e vários momentos de humor. Hitchcock filma de maneira muito simples, teatral, com leveza. O resultado é uma deliciosa comédia que figura entre os melhores filmes do grande Mestre.

por ronald

20 de abril de 2007

O Crocodilo

O Crocodilo



Il Caimano, Itália, 2006. DE Nanni Moretti. COM Silvio Orlando, Margherita Buy, Jasmine Trinca. 112 min. COMÉDIA.

Que Roberto Begnini que nada! Nanni Moretti é o principal representante do cinema carcamano atualmente. Considerado o Woody Allen italiano (referencia cujo eu discordo, já que ambos possuem genialidades totalmente distintas), Moretti é bastante versátil. Conhecido por comédias pessoais e biográficas como Caro Diário e Aprile e dramas humanos melancólicos, como O Quarto do Filho, em seu novo trabalho, o diretor evoca um cinema político italiano dos anos 60 e 70, e manda brasa em cima de Silvio Berlusconi de forma corajosa, ousada e bem humorada, sem panfletagem. O Crocodilo trata as dificuldades de um produtor de B Movies, Bruno Bonomo, que não consegue trabalhar em um filme há 10 anos. Em meio aos problemas conjulgais e financeiros, Bruno se arrisca em um novo roteiro escrito por uma jovem e inexperiente diretora. Esse roteiro expõe justamente a figura do primeiro-ministro italiano e magnata da comunicação. E é também a forma criativa e sutil que Moretti criou para criticar seu algoz. Mas em nenhum momento emerge um tom de denúcia explícita. Soa mais como um desabafo de Moretti em relação ao impacto causado na cultura e sociedade italiana influenciada pelo governo de Berlusconi, que além de primeiro-ministro, possui três canais de televisão na Itália. Apesar de algumas pieguices desnecessárias, O Crocodilo acaba funcionando como uma homenagem ao sonho de se fazer cinema ao mesmo tempo que discursa suas insatisfações contra o poderoso Crocodilo italiano.

por ronald

17 de abril de 2007

Ventos da Liberdade



The Wind That Shakes the Barley
, Inglaterra, 2006. DE Ken Loach. COM Cillian Murphy, Padraic Delaney, Liam Cunningham. 127 min. Pathé. DRAMA.

Ken Loach é um dos últimos diretores que ainda trabalha em cima de um cinema político específico que está fora de moda hoje em dia. Porém, dentro desse nicho cinematográfico, ele é um mestre, por isso seu nome ainda é citado como importante referência do cinema atual. Aos 70 anos, com uma visão política esquerdista, o diretor inglês sempre buscou discutir os problemas enfrentados pela classe trabalhadora focando o lado humano e cotidiano de seus personagens. Ventos da Liberdade, que narra a trajetória de dois irmãos na formação de uma milícia contra a dominação inglesa sobre a Irlanda na década de 20, é um exemplo. O filme procura retratar fielmente a história detalhando o inicio de uma resistência que se transformaria no Exército Republicano Irlandês.

Apesar das análises e conclusões ressaltadas, o filme não deixa de ser irregular em alguns momentos. E tentando fugir constantemente, Loach acaba sendo obrigado a tangenciar num sentimentalismo banal que não prejudica o filme, aliás, dá um charme a mais. Entretanto, o verdadeiro poder político perde o seu vigor inicial com a entrada do melodrama.

Ventos da Liberdade ganhou a Palma de Ouro no festival de Cannes do ano passado. Vale mais pelo conjunto da obra que o filme em si. Foi a oitava vez que o diretor participou do festival e a primeira vez que levou o prêmio principal, embora tenha ganhado o prêmio da crítica em 1995, com Terra e Liberdade, um filme similar a esse aqui, embora superior, mais poderoso politicamente e com dramas humanos que refletem um trabalho mais elaborado do diretor.

por ronald

13 de abril de 2007

Uma Amizade Sem Fronteiras



Monsieur Ibrahim et les fleurs du Coran, França, 2003. DE François Dupeyron. COM Omar Sharif, Pierre Boulanger, Gilbert Melki. 95 min. Columbia. DRAMA.

Retratar o costumeiro de maneira simples é o que torna Monsieur Ibrahim tão sublime e interessante. A primeira metade do filme se resume ao cotidiano do jovem Momo em suas andanças entre a casa opressiva em que vive com o pai viciado em laxantes e a lojinha do tal Ibrahim do título, a quem recorre para conseguir ingredientes para suas receitas. As experiências de vida Momo adquire pela janela do seu quarto, em que passa parte do dia observando as prostitutas da Rue Bleue numa Paris barulhenta e disposta a diversão. O ponto determinante para mudar essa história é o abandono de Momo pelo pai. Assim, além de Ibrahim, as prostitutas a quem paga com francos e sinceridade o adotam. O diretor François Dupeyron teve a graça de encontrar em Sharif o mulçumano perfeito para compor Ibrahim e a desenvoltura de um judeu que cresceu sem família no intérprete de Momo, Boulanger. A trilha sonora inebriante pontua todas as descobertas de sentimentos e emoções do rapaz pelos sábios conselhos de Ibrahim numa viagem de esperança, crença e plenitude de viver.

por felipe

11 de abril de 2007

Cantando na Chuva

À minha musa...

Cantando na Chuva



Singin' in the Rain, USA, 1952. DE Stanley Donen e Gene Kelly. COM Gene Kelly, Donald O'Connor, Debbie Reynolds. 103 min. MUSICAL.

Dentre todos os musicais que eu vi, Cantando na Chuva foi o mais divertido e poucos continuam, ao longo dos anos, tão atuais. O filme é uma experiência transcendental e todos os apaixonados, não só por musicais, mas pelo cinema, não podem perdê-lo.

A história de Cantando na Chuva é sobre a produção de filmes. Claro que há uma historinha romântica, como de praxe na maioria dos musicais, mas é muito bem contextualizado na indústria cinematográfica num período de transição: a mudança do cinema mudo para o cinema falado. O filme trata disso com bastante veracidade. Os produtores escondiam os microfones da vista da platéia e o publico gargalhava ao ouvirem as vozes dos seus artistas favoritos pela primeira vez.

Mas o grande prazer são os números musicais. Seus três astros, Gene Kelly, Donald O’Connor e Debbie Reynolds devem ter ensaiado incansavelmente seus números de dança, que envolvem alarmantes acrobacias arrebatando vertiginosamente a cada apresentação. O número de dança “Singin’in the Rain”, do encharcado Gene Kelly é a mais memorável do filme (alguns até dizem do cinema), mas a do engraçado Donald O’Connor em “Make’em Laugh”, particularmente é superior, no qual o personagem se contorce como nos filmes pastelões.

O estilo de dança de Kelly e O’Connor era mais robusto e acrobático em relação ao grande mestre Fred Astaire. A dança de O’Connor em “Make’em Dance” é uma das mais espantosas e filmadas em longos planos seqüência. Já na cena em que Kelly realiza “Sing’in the Rain”, várias mudanças foram feitas até se tornar o que é. No roteiro original, o numero seria no final e incluiria os três protagonistas. Porém Kelly transformou no formato solo e muda para se apresentar logo após que ele e a jovem Kathy (Reynold) percebem que estão apaixonados. Isso explica porque ele não se importa em ficar molhado está embriagado pelo amor.

O encanto de Cantando na Chuva continua em cada apresentação musical, na simpatia de seus personagens e na originalidade da sua estrutura. Itens que Hollywood não conseguiu repetir e foi enfraquecendo com o tempo. Poucos musicais, após Cantando na Chuva, merecem destaque pela originalidade, o que dá mais saudade ainda do filme e de suas sensações gloriosas.

por ronald

8 de abril de 2007

300

300



300, USA, 2006. DE Zack Snyder. COM Gerard Butler, Lena Headey, Rodrigo Santoro. 117 min. AÇÃO.

Agora sim, 300! Tanta coisa já foi comentada em blogues e sites de cinema que resolvi fazer apenas uns breves comentários a respeito do filme, já que o outro crítico desse mísero blogue, que deveria fazer suas análises mais detalhadas, não atualizou na devida data, e também porque já passou da hora desse espaço se pronunciar sobre o assunto, já que era uma das produções mais esperadas do ano. Bom, 300 é um filme falho. Filmado em estúdio preguiçosamente com fundo azul para serem inseridos cenários digitais. Possui um roteiro superficial com diálogos pífios e atuações exageradas com atores sarados de sunga em grande parte do filme. Mas e daí? O filme não tem qualquer intenção de ser o filme perfeitinho metafisicamente, filosoficamente, históricamente, muito menos essencialmente falando. Se há falhas, paciência aos chatos, o filme tem o objetivo de entreter com suas cenas visualmente incríveis que, mesmo criadas em computação gráfica, recriaram perfeitamente a estética que o próprio Frank Miller imaginou em 300 de Esparta, o grafic novel no qual o filme foi baseado.

Pode ser preguiça filmar em estúdio? Pode! Mas que a plasticidade de algumas cenas é de encher os olhos, isso é! Como na cena em que o jovem Leônidas encara um lobo, ou quando, de novo, Leônidas, escala uma montanha na penumbra da noite. Mas principalmente nas batalhas que vislumbramos as imagens mais interessantes. Filmadas com bastante exagero, os soldados espartanos fazem uma verdadeira chacina contra os persas, com direito a membros amputados e o sangue espirrando às sete bandas. Tudo de maneira estilizada, exagerando em câmeras lentas e focalizando bem a violência em torno de toda a batalha, sem a mínima preocupação com a realidade. A fotografia, escura e granulada, mesmo que digital, é o que há de mais fiel aos quadrinhos e acho que não chegariam ao mesmo resultado se filmado em locações reais. As cores, as sombras, o tom dark de Miller está estampado em cada frame de 300.

Gerard Butler, que vive o rei Leônidas é um dos únicos atores que exige alguma performance, já que a maioria só está ali para exibir seus corpos musculosos e participar de um diálogo ou outro. Rodrigo Santoro está muito bem no papel de Xerxes, com duas vezes seu tamanho real e uma voz grave editada em estúdio. É o que mais se aproxima do teor homossexual que tanto comentam, já que o diretor Zack Snyder preferiu não mostrar o que os gregos faziam entre uma batalha e outra sexualmente falando. Ao invés, deu ênfase ao amor pelas esposas e filhos que os aguardam em casa.

O filme peca em quebrar várias vezes o ritmo da narrativa com cenas da rainha em Esparta. Mas nada que estrague a diversão. A direção é confiável, apesar de filmar no fundo verde (ou azul), o que muita gente acha preguiça (como já disse umas cinco vezes aí pra cima!), porém Snyder sabe aproveitar de trucagens dos primórdios cinematográficos e trabalha com bastante vigor e espontaneidade. E nem acredito que cheguei até aqui em baixo com esse texto. Era pra ser bem menor, então finalizo por aqui, embora perceba o quanto ainda há para ser dito sobre 300. Um filme muito rico visualmente. Suas imagens realmente impressionam.

por ronald

3 de abril de 2007

Eu sei que queriam mesmo a crítica de 300, mas ainda não vi por motivos técnicos e o Felipe já devia ter colocado semana passada!

Tudo bem, mas só de raiva (brincadeira), hoje vai uma resenha longa, chata de um filme antigo e ninguém vai querer ler. Mas é um filme muito bom, recomendo!

Ronald Perrone - editor chefe




Aguirre – A Cólera dos Deuses



Aguirre, der Zorn Gottes, ALE, 1972. DE Werner Herzog. COM Klaus Kinski, Helena Rojo, Ruy Guerra. 100 min. DRAMA/AVENTURA.

Com o festival Herzog passando no Tele Cine Cult, pude rever essa obra que é uma das mais impactantes e sombrias fantasias do cinema. Conta a história da expedição do conquistador Pizarro, que liderou um grupo de homens pela floresta amazônica do Peru, atraídos pela história da cidade de ouro perdida.

Apesar da direção crua e documental de Werner Herzog, a poesia permeia a cada cena. Já no primeiro plano, onde uma longa linha humana serpenteia um vale enquanto a neblina envolve os picos montanhosos, percebe-se o tom poético e impressionante das imagens criadas pelo diretor que não se preocupa em se prender aos fatos. Não preenche a jornada com episódios e situações. São os sentimentos que interessam, acima de tudo. Os sentimentos do espectador e da tripulação da jangada em expedição e a imensidão do rio à sua frente e da floresta que os envolve, pois as águas subiram e as invadiram.

Sem um roteiro determinado, herzog declarou certa vez que não havia escrito nem os diálogos dez minutos antes de filmar. Todavia o filme não se estrutura em diálogos, mas sim em imagens, em atitudes de personalidades, principalmente de Aguirre, interpretado por Klaus Kinski, com seus grandes olhos azuis opressivos e expressivos, crucial para o efeito hipnótico do filme. Aguirre é um conquistador dos mais obcecados pelo objetivo da expedição.

As filmagens de Aguirre viraram lendas entre os círculos cinematográficos. Conta-se que Herzog apontou uma arma para Kinski para que continuasse trabalhando. Outros problemas eram as freqüentes febres e inanições devido ao inóspito local no meio da selva onde ocorreram as filmagens. Tudo porque Herzog é um dos diretores mais visionários do cinema contemporâneo. Seu cinema acaba refletindo o seu próprio ser. A história de homens perseguidos por uma visão de grandes façanhas e pecam em nome do orgulho. Essa é a história de Aguirre. É o cinema de Herzog.

por ronald

1 de abril de 2007

Monsenhor o Retorno

O retorno do nosso correspondente oriental:

Dog Bite Dog

½

Gau ngao gau, Hong Kong, 2006. DE Pou-Soi Cheang. COM Edison Chen, Sam Lee, Suet Lam. 109 min. AÇÂO.

Um pesqueiro em alto mar. Uma velha ao fogão preparando alguma gororoba. Um sujeito magricela e sujo é alimentado pela velha como se fosse um animal. Assim começa Dog Bite Dog. A fita conta a história de um jovem tailandês que sempre foi, desde a sua infância, um escravo obrigado a brigar pela sua vida em arenas de apostas. Mas seu destino dá uma grande reviravolta quando é contratado para realizar a tarefa de assissinar uma advogada, esposa de juiz e voltar à Tailândia para levar o dinheiro do contrato ao seu patrão. Com o trabalho feito, só lhe restava voltar à terra natal, porém o jovem tem a infelicidade de cruzar com o detetive Wai, que de maneira quase insana decide investigar a morte da advogada e pegar o assassino. Em se tratando de insanidade, há duas demarcações claras no filme. Por um lado, o jovem que desde sua infância sempre foi tratado como animal e mal sabe se expressar, tentando sobreviver em um país de língua desconhecida e onde é procurado por assassinato. Do outro lado o detetive Wai, que sem se recuperar de uma situação traumatizante, decide achar a todo custo o assassino.

O filme segue um ritmo que também nos leva à loucura. Todo filmado com as cameras em mãos, dando ao filme um tom realista do que se passa na tela, usando e abusando de cenários escuros, talvez para dar um clima mais pertubador. Com cenas de lutas bem ao estilo de briga de rua e bata-com-o-que-tiver-à-mão, o filme é bem violento e não economiza nas mortes sagrentas. A direção de Pou-Soi Cheang dá extremo valor a um tom de suspense e loucura, além de situações dramáticas, em determinados momentos. O final é um dos pontos altos, assim como a trilha sonora que quase inexiste, mas que mesmo em minúscula quantidade, faz muito bem seu papel. Boas atuações de Edison Chan (o jovem tailandês) e Sam Lee (detetive Wai), embora o segundo tenha sido um tanto exagerado, não chega a decepcionar. Recomendadíssimo. Assistam.

por monsenhor