29 de setembro de 2007

Good Bye Dragon Inn

Adeus, Dragon Inn, de Tsai Ming Liang



A chuva que faz a água correr e respingar pelas calhas dá a impressão de que são as lágrimas do velho cinema. Adeus, Dragon Inn é uma homenagem aos antigos cinemas populares que se abarrotavam de gente e hoje em dia, são ofuscados pelos cinemas de shoppings, diversão de classe média, com produções caça-níqueis. O filme se passa num velho cinema de Taipei que realiza sua última sessão, projetando Dragon Inn, de 1967, dirigido por King Hu, um verdadeiro clássico cult das artes marciais. Mas ao contrário de antes, poucas pessoas acompanham a despedida. Há o projecionista, a faxineira manca e a bilheteira. Na platéia, um ator veterano que participou do filme projetado, e vários homossexuais em busca de sexo o que gera certos momentos com um tom de humor, mas de forma subliminar, nas entrelinhas das situações que Tsai Ming Liang acompanha com sua câmera estática e rígida em longos planos. A incomunicabilidade, que é tema de todos os filmes do diretor, acompanha a narrativa com os personagens que nunca conseguem expressar suas angustias e desejos. Adeus Dragon Inn talvez seja o trabalho mais melancólico do cineasta, uma ode de um tempo que passou.

por ronald

25 de setembro de 2007

Amantes (1984), de John Cassavetes



Os filmes de Cassavetes são momentos contínuos de fragmentos de uma vida, ou seja, inicia com acontecimentos que precedem uma vida inteira e desfecham sem uma conclusão final, já que o diretor dizia que a vida continua. É como pegar o bonde andando e saltar antes do destino final. Amantes é um dos exemplos mais claros que ilustra o cinema de Cassavetes. O filme nos apresenta Robert Harmon (vivido pelo próprio Cassavetes), um escritor fazendo pesquisas e entrevistas para seu novo livro enquanto sua irmã (Rowland) está em processo de divórcio e busca guarda da filha. Daí pra frente o filme é estruturado em um conjunto de situações dramáticas que são belos estudos de relações familiares, amor, solidão, loucura. Elementos que interagem muito bem com o trabalho de direção pessoal, independente e improvisado de Cassavetes. Amantes é longo demais e isso pode causar um desconforto para o publico em geral, mas para aqueles que conseguirem se aprofundar nas fortes situações e diálogos poderão aproveitar uma bela e melancólica obra prima do cinema independente americano.

por ronald



Cassavetes, genial tanto em cena
quanto atrás das câmeras...


Já no Cine Groove, um clássico
contemporâneo de David Lynch

22 de setembro de 2007

O Professor Aloprado (1963), de Jerry Lewis



Jerry Lewis foi um dos maiores gênios da comédia no cinema americano e, em especial, O Professor Aloprado, comprova efetivamente essa afirmação em dois aspectos: como diretor e ator. Se como ator Lewis faz com perfeição dois personagens com comportamentos e físico totalmente diferentes, como diretor acerta ao criar seqüências notáveis com belos enquadramentos e o uso da cor, como na cena em que o professor se transforma pela primeira vez em Buddy Love.

por ronald


O Poderoso Chefão (1972), de Francis Ford Coppola



Nunca quis escrever sobre este filme porque tenho consciência da grandiosidade da obra. Daria para escrever um livro de quinhentas páginas para falar dos temas, dos personagens e da cinematografia comandada por Francis Ford Coppola. Mas não resisti. Em poucas palavras, O Poderoso Chefão é o filme definitivo de gangsters. Mas também há um forte tratamento familiar nas entrelinhas do entrecho escrito por Mario Puzzo em seu best seller e que foi muito bem aproveitado por Coppola na fita. A máfia é uma grande família, e tudo depende disso. É a motivação dos corpos agindo no quadro. A estrutura narrativa clássica permite que cada personagem deixe uma marca no filme, principalmente Marlon Brando, vivendo o patriarca, é uma das grandes maravilhas do cinema. Coppola consegue bons momentos estéticos acompanhado pela bela trilha de Morricone. Duas cenas nunca sairam da minha cabeça desde a primeira vez que vi há alguns anos: Al Pacino mandando bala no restaurante. Timing perfeito, brutal e poderoso. E o final, com incrível edição mostrando o batizado do Sobrinho do personagem de Pacino em uma igreja intercalando com a morte de todos os chefões.

por ronald


E no Cine Groove, um clássico maldito do pai do Gore: Lucio Fulci

18 de setembro de 2007

Persona

Persona (1966), de Ingmar Bergman

Na opinião deste pobre cinéfilo, é a obra máxima de Bergman. Persona transcende o próprio cinema e a cada revisão, a esperança de entender seus segredos se torna um prazer visual dos mais impressionantes. É descobrir as seqüências de imagens e criação de realidades através de idéias literais, como na cena em que Bibi Anderson narra suas experiências sexuais na praia ou em todas as outras situações em que Liv Ullman e Bibi Anderson abordam sobre a vida, arte, política, a identidade de cada um, de uma forma obscura e onírica.
por Ronald


E no Cine Groove, meu John Carpenter favorito...

13 de setembro de 2007

O grande Chefe

O Grande Chefe (Direktøren for det hele), de Lars Von Trier



Depois de dividir a crítica com Manderlay, Lars Von Trier decidiu que era hora de dar um tempo na trilogia da América. Taxado como picareta para alguns e gênio para outros (Eu me incluo nesta), o diretor resolveu fazer algo mais simples. Sua própria voz em off inicia uma narração em seu novo filme O Grande Chefe, dizendo que se trata de uma comédia que não traz qualquer reflexão e pretenção, a não ser de divertir o publico, que é o objetivo puro da comédia no seu âmago. Com um baixo orçamento, o diretor utiliza apenas atores desconhecidos do grande grande publico. Mas os cinéfilos vão se lembrar do protagonista, Jens Albinus, de outro filme do Lars, Os Idiotas, contribuição de Lars para o movimento Dogma 95. Ele vive um ator contratado por uma empresa para se passar pelo dono da companhia. O verdadeiro presidente, na verdade, tem o interesse de usá-lo para fechar um grande negócio com um executivo irlandes. Os problemas se iniciam quando o ator começa a se relacionar com os funcionários criando várias situações das mais diversas. Claro que não sairia nada da mente de Lars que não houvesse pretensão. Um olhar reflexivo aponta várias críticas ao sistema organizacional hierárquico e trabalhista. A direção é fora dos padrões do diretor. Dessa vez a câmera fica estática, apesar dos enquadramentos sempre inusitados revelarem uma preocupação estética diferenciada. A edição, entrecortada e fragmentada permanece a mesma de seus outros filmes, e funciona aqui também. O Grande Chefe teve uma modesta divulgação e depois de um longo período chegou ao Brasil. O filme foi lançado no festival de Copenhage e Lars resoveu assistir escondido no meio do publico, só para ver a reação. Coisas de gênio.

por ronald

11 de setembro de 2007

O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum), de Paul Greengrass



Definitivamente eu precisaria ver A Supremacia Bourne (que ainda não tinha visto) pra digerir este aqui por completo, e foi isso que fiz, assisti os dois um atrás do outro e foi uma experiência ótima. O Ultimo Bourne fecha a trilogia com grande estilo e o diretor Paul Greengrass comprova que é, atualmente, o melhor realizador de filme de ação em Hollywood. Sua direção é autoral e possui bastante energia com a câmera sempre em movimento constante, tremendo como um terremoto prestes a destruir tudo em sua volta, e é mais ou menos o que acontece com o protagonista em suas fugas alucinantes em alta velocidade. Vale destacar duas cenas que demonstram toda virtuose do diretor em dirigir ação: a cena no Marrocos onde Bourne troca socos com o assassino local (fazia tempo que não via uma porradaria tão bem filmada) e a perseguição de carro que não poderia faltar como nos filmes anteriores. Apesar da perseguição na Rússia em A Supremacia Bourne ter causado um impacto maior, a seqüência de Ultimato não fica atrás e o sangue ferve da mesma forma que um Operação França. E o mais interessante da trilogia (ainda mais nos dois últimos filmes), é a busca pelo realismo, por mais absurdo que algumas seqüências possa parecer. Matt Demon cumpre muito bem o papel do espião sem memória e transforma seu Jason Bourne em um dos mais carismáticos personagens espiões que o cinema já criou.

por ronald

7 de setembro de 2007

Lista dos anos 50, Cine Groove

Lista dos 20 melhores filmes da década de 50 que mandei pra Liga dos Blogues Cinematográficos:

1. Os Incompreendidos, Truffaut

2. Noites de Cabíria, Fellini
3. O Sétimo Selo, Bergman
4. Glória feita de Sangue, Kubrick
5. Hiroshima mon Amour, Resnais
6. Crepusculo dos Deuses, Wilder
7. No Silencio da Noite, Ray
8. Janela Indiscreta, Hitchcock
9. A Marca da Maldade, Welles
10. Meu Tio, tati

11. Milagre em Milão, de Sica
12. A Estrada, Fellini
13. Onde Começa o Inferno, Hawks
14. Morangos Silvestres, Bergman
15. Os Sete Samurais, Kurosawa
16. Cantando na Chuva, Kelly & Donen
17. Rastros de Ódio, Ford
18. Doze Homens e Uma Sentença, Lumet
19. Moby Dick, Huston
20. Quanto Mais Quente Melhor, Wilder

Além disso, gostaria a convidar os poucos leitores daqui para visitar o Cine Groove, um filho menor do cine art - um blog dedicado ao cinema físico, fantástico, horror .

Aguardo vocês também lá:

3 de setembro de 2007

Possuídos (Bug), de William Friedkin



Não é porque Possuídos foi nomeado dessa forma que tenha alguma relação com o tema de O Exorcista, por exemplo, um outro dos grandes trabalhos do diretor Willian Friedkin. Mas que título brasileiro cretino esse também. Na verdade, o filme é um profundo estudo psicológico onde seus personagens estão sim, possuídos, mas pela insanidade, paranóia e teorias conspiratórias governamentais envolvendo insetos, e apesar da rápida metamorfose mental, o resultado é tão estranho e perturbador quanto pegar seus pais transando depois de velhos. A grande sacada disso tudo é a forma como os atores se comportam e modificam gradativamente o ambiente e o equilíbrio psicológico. Seus personagens possuem características e ações muito frágeis e poderiam cair no ridículo facilmente, mas é com segurança e talento que o elenco - principalmente Asheley Judd e Michael Shannon - serve de base para que todo restante funcione. Além disso, a direção de Friedkin é de um controle absurdo, já que delimita a ação narrativa dentro de um espaço fechado durante todo o filme, que é perfeito para a criação de uma atmosfera densa e pesada, causando ainda mais estranheza. Friedkin, após um longo hiato, finalmente soube não decepcionar seus fãs que há muito tempo esperava uma obra de peso. Operação França, o já citado O Exorcista, Parceiros da Noite e Viver e Morrer em Los Angeles são só alguns exemplos de importantes filmes do cinema americano e que constam na filmografia do diretor.

por ronald



The Science of Sleep, de Michel Gondry



O delírio visual de uma experiência onírica um tanto desperdiçada numa película ingênua e bobinha até certo ponto, mas não deixa de ter seu interesse, principalmente nas seqüências dos sonhos que são de imensa criatividade por parte do diretor francês Michel Gondry. The Science of Sleep perde um pouco do seu poder narrativo durante a trama, diferente do filme anterior do cineasta, Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembrança, mas se sustenta pelo padrão visual e alguns achados de direção.

por ronald



Escravas do Medo (Experiment in Terror), de Blake Edwards



Blake Edwards ficou conhecido pelas comédias em parceria com Peter Sellers como Um Convidado bem Trapalhão e A Pantera cor de Rosa. Mas também foi um excelente realizador de suspenses policiais, como é o caso de Escravas do Medo, onde duas irmãs são chantageadas por um bandido psicopata que pretende usar uma delas para assaltar um banco. O diretor demonstra bastante habilidade em criar atmosferas do gênero apesar de manter uma certa ingenuidade. Algumas seqüências são belíssimos trabalhos estéticos, como a cena na casa da mulher que produz manequins e Glen Ford como o implacável detetive do FBI dá um tom ainda mais estiloso ao filme.

por ronald


Glen Ford manda bala em Escravas do Medo (1962)

1 de setembro de 2007

Filmes de Agosto


Lista completa de todos os filmes que vi no mês de Agosto, com revisões em negrito e - seguindo a sugestão do amigo Sérgio Andrade (Kino Krazy) - segue também a cotação de cada filme visto:

Escravas do Medo (1962), de Blake Edwards * * *
Medos Privados em Lugares Públicos (2006), Alain Resnais * * * *
Os Simpsons – O Filme (2007), de * * * *
Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), de Woody Allen * * * * *
Desconstruindo Harry (1997), de Woody Allen * * * * *
Yojimbo (1961), de Akira Kurosawa * * * * *
Extermínio 2 (2007) de Juan Carlos Fresnadillo * * *
Despertar dos Mortos (1978) George Romero * * * *
Black Sheep (2006), de Jonathan King * *
The Science of Sleep (2006), de Michel Gondry * *
Amantes (1984), de John Cassavetes * * * * *
Operação Yakuza (1975), de Sidney Pollack * * *
Possuídos (2006), de Willian Friedkin * * * *
Paranóia (2007), de D. J. Caruso * *
Sweet Sweetback’s Baadasssss Song (1971), de Melvin Van Peebles * * *
L’ultimo Mondo Canibale (1977), de Ruggero Deodato * * *
Scorpio (1973), de Michael Winner * * *
Lemming (2005), de Dominik Moll * *
O Professor Aloprado (1963) Jerry Lewis * * * * *
A Supremacia Bourne (2004) Paul Greengrass * * *
O Ultimato Bourne (2007) Paul Greengrass * * *
Le Lac des Morts Vivant (1981) Jean Rollin *
Phenomena (1985), Dario Argento * * *
Shampoo (1975) Hal Ashby * * *
Halloween (2007), de Rob Zombie * * *