28 de fevereiro de 2006

Era uma vez no oeste



C'era una volta il West, ITA/USA, 1968. DE Sérgio Leone. COM Cláudia Cardinale, Henry Fonda, Charles Bronson, Jason Robards. 165 min. Paramount. WESTERN.

Após a bem sucedida Trilogia dos Dólares, Sérgio Leone deu início à Trilogia da América com o filme Era Uma Vez no Oeste. Apesar de não ter dado a bilheteria esperada pelo filme na época, trata-se de um dos melhores Westerns de todos os tempos. O antológico início do filme e os créditos, já valem à pena. Leone nos faz esperar um longo período por um trem juntamente com três personagens, num silencio quase total, não fosse o som ambiente. Leone filma com um perfeccionismo absurdo cada detalhe, como uma gota que cai num chapéu ou a uma mosca que pousa numa boca. Leone prepara o espectador para começar a ópera. Uma ópera da morte.

Apresentando quatro personagens centrais, Leone os cria como se fossem seus próprios filhos e constrói em cima dos mesmos, o argumento preciso para o filme. Harmônica, interpretado por Charles Bronson, é um cabra que está à procura de Frank e faz de tudo pra encontrá-lo. Peter Fonda vive o tal Frank, um dos vilões mais maquiavélicos dos filmes de Bang Bang. Jason Robards é Cheyene, o líder uma gangue procurada pela policia. E Jill McBain, interpretada pela bela Claudia Cardinale.

Charles Bronson com sua face sem expressão até que consegue realizar uma boa atuação. Principalmente porque o personagem exige um rosto mais caricato, já que Bronson aparece tocando uma gaita em quase todos os momentos. Robards e Cardinale são atores excelentes e não decepcionam. Agora, Henry Fonda, tenho até medo. Fonda faz um dos seus melhores papeis de toda sua longa carreira. Ninguém esperava que o bom moço de Hollywood aparecesse matando sem piedade, inclusive, crianças.

A trilha sonora de Ennio Morricone é visionária em Era uma Vez no Oeste e para cada personagem foi criado um tema diferente de acordo com as características de cada um. Sergio Leone já havia amadurecido até o limite em termos de direção com Três Homens em Conflito (66) e aqui ele experimenta evoluir sem nunca sair de seu próprio estilo de conduzir Westerns. O resultado é fantástico. Leone abusa de closes, enquadramentos e movimentos de câmeras que nos colocam dentro da ação como na cena do vagão de trem. O duelo final foi filmado com uma sensibilidade incrível. Enfim, Era uma Vez no Oeste, é um filme mais sério e brutal e não tão caricatural como em Tês Homens em Conflito. Porém, todos os elementos chamados “Leonianos” do Western Spaghetti podem ser conferidos nesta obra prima do cinema.

Por Ronald Perrone

23 de fevereiro de 2006

Crime Delicado e Episódios da Serie Masters Of Horror

Crime Delicado



Brasil, 2005. DE Beto Brant. COM Marco Ricca, Lílian Taublib, Felipe Ehrenberg, Maria Manoella. 87 min. Downtown. DRAMA.

Quarto longa de Brant, Crime Delicado é um projeto conjunto do diretor e do protagonista da fita, Marco Ricca. Desta vez, Brant não seduz o espectador com uma trama ágil e policialesca, entregando, em vez disso, uma obra com ritmo mais lento, que pede para ser assistida ao invés de se impor como uma crônica pitoresca da violência na linha dos anteriores (e excelentes) Os Matadores, Ação Entre Amigos e O Invasor. Na trama, um crítico teatral culto e bem articulado (Ricca, mostrando por que é um dos melhores atores de sua geração), mas emocionalmente obtuso, se envolve com uma jovem que, ironicamente, não se enquadra em seus obsessivos parâmetros de estética e perfeição. É o início de um pesadelo moral, culminado em uma acusação de estupro e na lenta degradação psíquica do personagem.

Tem textura de “filme de arte”, mas carrega uma mensagem suficientemente forte para estimular o debate e desnudar preconceitos arraigados que habitam o inconsciente de todos nós.

Por Felipe Mappa

Masters of Horror

Episódio 1 – Incident on and of a Mountain Road



Com aproximadamente 60 min de duração para o desenvolvimento de uma trama, alguns episódios começam com tensão a toda velocidade e com objetividade. Incident on and of a Mountain Road, dirigido por Don Coscarelli, é assim. E é justamente esse o motivo que decepciona. A história é muito boa, mas a narrativa em flashbacks ao invés de criar expectativas para o final, deixou a história com um tom meloso quebrando o ritmo de tensão que deveria ter no fim do episódio intercalando imagens de tranqüilidade que deveriam ser do começo.

Episódio 2 – Dream’s in the Witch House



Não tem aquelas velhas histórias de bruxa e casas assombradas que já não nos assustam mais? Então, o segundo episódio da série Masters of Horror dá uma renovada no assunto e até consegue dar bons sustos, envolvendo uma bruxa e um rato com cabeça humana. É difícil dissertar sobre a história sem estragar as surpresas, mas o que dá pra ressaltar é que conta com um estudante que aluga um quarto numa mansão misteriosa onde quase todos os habitantes possuem aspectos e maneiras bizarras e acaba se envolvendo em uma misteriosa trama. O diretor desta vez é Stuart Gordon, que faz uma mistura interessante com o horror puro e sanguinário com um incrível suspense psicológico.

Episódio 3 – Dance of the Dead

1/2

Até onde eu conheço, o ultimo trabalho legal de Tobe Hooper foi o clássico do terror, O Massacre da Serra Elétrica. Mas em Dance of the Dead, Hooper demonstra uma segurança naquilo que faz e consegue criar uma atmosfera interessante para narrar o seu episódio. Num futuro apocalíptico, uma jovem ingênua conhece um rapaz “barra pesada” criando uma estranha relação entre os dois. O filme conta com a presença sempre competente de Robert 'Freddy Kruger' Englung. A edição é bacana e possui umas imagens distorcidas que às vezes dão uma sensação de desconforto. É um episódio fraco para a série, não chega a ser empolgante e tem seus momentos falhos e desnecessários, mas não chega a decepcionar.

Episódio 4 – Jennifer

1/2

Este é o episódio do consagrado diretor italiano Dario Argento, um nome de peso entre os mestres do horror mundial. Isso prova que estamos bem servidos da série Masters of Horror. Jennifer é uma moça muito boazinha. É educada e um pouco tímida. Talvez seja por isso que o policial Frank quis adotá-la após salvar sua vida. Mesmo depois de ver o rosto deformado de Jennifer, Frank fica obcecado por ela (já que, beleza não é tudo). Porém, tudo começa piorar quando Frank descobre os hábitos alimentares da moça. Gatos e criancinhas não são pratos que Frank estava acostumado a digerir. Dario Argento dirige como um mestre seus atores e arranca de Steven Weber (Frank) uma atuação excelente. Ao final uma situação de hipérbole de violência e morte em um dos mais intrigantes episódios da série.

Por Ronald Perrone

20 de fevereiro de 2006

Capote e Sob, Domínio do Medo e Anivesário de Peckinpah



Hoje seria a vez do rei da violência no cinema, Sam Peckinpah, completar 81 anos de vida, mas infelizmente, o rapaz partiu dessa para uma melhor (ou pior) em 1984. E como hoje é dia de crítica, e nóis num somo besta nem nada, segue abaixo a resenha de um dos seus melhores filmes, junto de um indicado ao Oscar.

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Capote

e 1/2

EUA, 2005. DE Bennett Miller. COM Philip Seymour Hoffman, Catharine Keener, Clifton Collins Jr., Chris Cooper, Bruce Greenwood. 98 min. Columbia DRAMA

Meses antes de Capote estrear nos Estados Unidos, o burburinho era alto como num buteco carioca em plena sexta-feira de verão. Alto. Bastante alto. Críticos especiais, convidados por pessoas mais especiais ainda, pregavam a palavra de ordem em relação à obrigatória indicação de Philip Seymour Hoffman ao Oscar. Quando o longa finalmente estreou, não houve quem dissesse o contrário. Tirando algumas raras associações de resenhistas, Hoffman e seu retrato intenso do escritor Truman Capote eram cartas certas nos baralhos das premiações.

Assisti à trama no conforto do meu lar, e devo dizer: o estreante Bennett Miller soube focar bem a trama do filme e capturar todas as facetas polêmicas e geniais de seu retratado. E isso se deve ao fato de Capote não ser a biografia completa do autor, mas a captura dele duraente a realização e pesquisa de À Sangue Frio, livro que cimentou o conceito de literatura jornalística nos Estados Unidos.

A fita não é hermética como se esperava. Quem nunca leu a obra de Capote pode digerir com facilidade a história do escritor que sai de Nova York para uma pequena cidade do Kansas para investigar a morte de toda uma família de classe mpedia alta – sempre acompanhado de Harper Lee (Keener), antes da fama de To Kill a Mockingbird. Na verdade, a investigação não é sobre quem foram os culpados (dois jovens capturados poucas horas depois), e sim acerca de quem eram os culpados e suas vítimas. Nessa caminhada, conhecemos um pouco sobre Truman, que se vê em um dos assassinos (“É como se tivéssemos crescido na mesma casa. E um dia ele saiu pela porta dos fundos e eu saí pela frente.”) e sua pesquisa se torna cada vez mais complexa e aparentementem pessoal. Há flashes do escritor meticuloso, do sujeito arrogante, do investigador objetivo, do homosexual histérico e do palestrante cativante. Não é qualquer ator que conseguiria capturar tamanhos extremos. Mas Philip Seymour Hoffman não é um ator qualquer. Nem Capote diria o contrário.

Por Felipe Mappa



Sob o Domínio do Medo



Straw Dogs, EUA/ING, 191. DE Sam Peckinpah. COM Dustin Hoffman, Susan George, Peter Vaughan. 118 min. Europa SUSPENSE

A incursão de Sam Peckinpah ao território do suspense, gerou um dos filmes mais sufocantes e surpreendentes do gênero. O roteiro enxuto de David Zelag Goodman e do próprio Peckinpah (baseado em um livro de Gordon Williams), constitui de uma estrutura narrativa lenta, mostrando a convivência do casal David e Amy. Dustin Hoffman, que vive David, é um matemático americano que resolve se mudar para a Inglaterra com sua esposa (Amy, Susan George), que é inglesa. Nesse novo local, uma casa de fazenda aparentemente tranqüila, David pretende escrever um livro e resolve reformar a garagem da casa. Logo no início, somos apresentados a alguns personagens e descobrimos até a existência de um sujeito que foi namorado de Amy no passado. Tomamos conhecimento também, de uma história secular (porem de grande importância para o entrecho) de um deficiente mental que se envolve com uma garota cujo pai jurou de morte o pobre idiota se ele se aproximasse dela.

Para trabalhar na reforma da sua garagem, David contrata um bando de preguiçosos que passam a invadir a privacidade do casal. Entre eles, ninguém menos que o ex-namorado de Amy. A situação sai totalmente de controle quando o bando consegue convencer David a sair de casa e os vagabundos têm total liberdade para entrar na casa e se aproveitar de Amy. A convivência do casal torna-se difícil (apesar da ignorância de David, pois Amy não conta o ocorrido). A incomunicabilidade é constante de ambos os lados. David cada vez mais se dedica somente ao seu trabalho e Amy acaba ficando de lado. Tudo isso é mostrado com muita calma pelas câmeras de Peckinpah, preparando o terreno para o que está por vir. Para que o choque seja maior.

Durante uma festa na igreja da cidade, o idiota deficiente mental sai com a garota proibida pelo pai. Essa sua aventura é o motivo que cria tragédias atrás de tragédias. Ao saber que o pai da garota o está procurando, o pobre idiota (só consigo chamá-lo assim) foge e acaba atropelado por David. Este o leva para casa e quando se dá conta, está totalmente cercado pelo pai e todo aquele bando de vagabundos (inclusive os homens que estupraram sua esposa) querendo que lhe entregue o idiota. David, sua mulher, e o idiota atropelado ficam sozinhos confinados em sua fazenda pelo cerco de mal feitores sedentos de sangue.

Deste ponto em diante, o filme se resume em uma só palavra: tensão. Peckinpah cria uma atmosfera claustrofóbica enquanto Dustin Hoffman defende sua casa com todos os recursos que possui contra a invasão. Esqueçam a lentidão narrativa do filme. Peckinpah, numa elogiável direção, impressiona o público com a violência sangrenta e selvagem bem ao estilo que ele próprio criou. Claro que o filme foi proibido durante muitos anos pelo governo britânico, porque é, indiscutivelmente, a obra mais forte e densa de Sam Peckinpah. Uma belezura!

Por Ronald Perrone

Aniversário de Robert Altman


Esse velhinho aí é o diretor Robert Altman e hoje ele completa 81 anos em plena atividade. Haja saúde!

16 de fevereiro de 2006

Boa Noite e Boa Sorte e Wolf Creek

Boa Noite, e Boa Sorte



Good Night, and Good Luck, EUA, 2005. DE George Clooney. COM David Strathairn, Robert Downey Jr., Patricia Clarkson, Jeff Daniels, George Clooney, . 93 min. Warner. DRAMA.

George Clooney é o queridinho do momento em Hollywood. Boa pinta, um ator competente e agora, um bom diretor e roteirista. Na verdade, eu prefiro Clooney atrás das câmeras do que à frente delas. Em Boa Noite, Boa Sorte, Clooney explora os bastidores do programa See it Now da CBS na época que o Senador MacCarthy enxergava comunistas para todos os lados realizando a famosa “caça às bruxas”, o que ficou conhecido como Marcathismo.

Apesar do resgate histórico e até mesmo importante, Clooney realiza um filme que já não nos interessa. Principalmente para nós, brasileiros, no qual, quase ninguém ouviu falar de Edward R. Murrow (David Strathairn). As situações vividas pelo personagem real acabam sendo mais ousadas que o próprio filme, ou seja, eu não diria que Clooney criou um filme ousado ou algo desse tipo. Se o filme fosse feito na época, teria mais impacto, mas chega, eu já estou divagando. Se uma análise mais profunda for praticada, é possível que se note um tom de crítica do jornalismo atual, a censura e pererê pererê, nada que esteja muito exposto.

Além disso, Clooney não consegue explorar com profundidade seus personagens. Nem mesmo o protagonista, limitande-se em apenas ser direto e objetivo. Há uma tentativa de um melodrama (não sou nada contra) com os personagens de Robert Downey Jr. e Patricia Clarkson, mas nada que atrapalhe o andamento da trama principal, o famoso nem fede nem cheira.

Boa Noite, Boa Sorte é o segundo filme que Gorge Clooney cai nas graças da direção (o primeiro foi Confissões de uma Mente Perigosa). Ambientado praticamente todo no estúdio da CBS, a câmera de Clooney flutua nos corredores e salas focalizando seus atores com um controle totalmente seguro. A belíssima fotografia é capaz de espantar um pouco a bilheteria no Brasil, já que a maioria dos brasileiros não assiste a filmes P&B. Porém é um ótimo artifício para recriar a época.

O ator David Strathairn, que foi indicado ao Oscar, está muito bem e seguro no papel principal, mas o personagem não exige muitas interpretações (exige muito cigarro). Até mesmo nas cenas em que ele apresenta o programa (Talvez o personagem real também não tivesse muita expressão facial). Clooney, que também faz um personagem no filme, fica neutro, apesar de aparecer em muitas cenas, deixando brilhar a estrela de David Strathairn.

Mas uma das grandes vantagens de Boa Noite, Boa Sorte é a duração. Nas mãos de um Oliver Stone, o filme teria umas 5 horas. Clooney o fez com duração de 1h e 30m. O filme consegue ser bom, pois, já que o tema, que não é tão impactante e interessante para os nossos dias, não dá tempo de ficar chato.

Por Ronald Perrone



Wof Creek



EUA, 2005. DE Greg McLean. COM Peter, John Jarratt, Cassandra Magrath. 99 min. Imagem. SUSPENSE.

Depois dos burburinhos causados em Sundance, do arrombo em Cannes e dos elogios da crítica, pude finalmente ter as minhas expectativas superadas. E nem é pelos dedos decepados, ou pelos sons de ossos massacrados, ou ainda imagens de pulsos pregados: Wolf Creek é um thriller do balaco porque trava um jogo psicológico tão poderoso com o espectador que... não tem como terminar a sessão sem a respiração ofegante.

A fita, baseada no assassinato de mochileiros e no caso Falconio, causou polêmica na terra dos cangurus por conta do dito sadismo em explorar o sofrimento de vítimas reais do seqüelado Ivan Milan (assassino que inspirou o personagem Mick Taylor).

Ok, agora me diga se tudo isso não é ingrediente de sobra prum puta filme de terror?

Ao contrário dos slashers atuais que dominam o cinema, o assasino dá a sua cara a tapa. Sua identidade pouco importa. Além dele, mais três amigos formam o elenco principal. Junte isso ao deserto australiano (onde a imensidão não se rende a abrigos, que não por acaso, é a primeira coisa que procuramos quando nos sentimos ameaçados). McLean constrói a trama em favor dos personagens: nos apresenta, torna-nos íntimos, cria afeição. E quando eles passam a ser tordurados é que a coisa fica feia - o espectador sente na pele.

Wolf Creek é um filme indie, de baixo orçamento e pequeno - tanto em escala quanto em duração. A fotografia inebriantemente preciosa de Brandon Trost captura a verdadeira essência do deserto australiano - de sua beleza inóspita ao isolamento cruel e assustador.

Mas o grande segredo desta produção australiana está mesmo na primeira parte - até quase metade do filme, o que você vê são três jovens com o pé na estrada, se divertindo num clima de aventura ingênua. Depois de horas de viagem, passam a manhã numa cratera, a Wolf Creek, e acabam no escuro, com a bateria do carro arriada, os eletrônicos pifados e sem nenhum sinal de vida humana em raios de quilômetros. É justamente neste momento que aparece um cara simpático à Crocodilo Dundee, e que, claro, promete ajuda. A partir daí o tom inocente é castrado por uma faca afiada e a tela tomada por seqüências pra lá de pustulentas. É a necessidade da sobrevivência, é o terror real e próximo à nossa realidade - o que sobra é nada menos que o medo, medo de gente. Eis aí o mais puro estado de aflição instaurado.

Por Felipe Mappa

14 de fevereiro de 2006

Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia

Para relembrar (ou para se conhecer...):

Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia



EUA/MEXICO, 1974. DE Sam Peckinpah. COM Warren Oates, Isela Vega, Kris Kristofferson. 112 min. United Artists. AÇÃO/THRILLER.

O cinema de Sam Peckinpah é marcado pela violência selvagem carregada em seus filmes e pelo tratamento de cada imagem para chocar o publico. E após mais de trinta anos, ainda choca. principalmente no filme Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (1974), pois, além do já citado tema violento, o roteiro ainda apresenta elementos mórbidos e tabus para época (violação de tumba, estupros, etc.) onde Peckinpah utiliza para cutucar os céticos com rédeas curtas.

Um poderoso fazendeiro dará uma recompensa a quem trouxer a cabeça de Alfredo Garcia, o homem que engravidou a sua filha. Misturando Road Movie com um Western moderno, Peckinpah acompanha a caçada do ponto de vista de Benny (Warren Oates) que acaba entrando nessa situação meio que por acaso.

Peckinpah, a certa altura do filme, cria uma tensão espantosa e a mantém até o final. Quando a violência explode, o diretor fica a vontade para utilizar os artifícios pelo qual ganhou notoriedade: derramamento de sangue, tiroteios em câmera lenta e a edição inovadora. O resultado é estranhamente belo.

Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia é o filme mais obscuro da filmografia de Peckinpah que contém outras pérolas da violência como Sob o Domínio do Medo (72) e Meu Ódio Será sua Herança (68).

Por Ronald Perrone

12 de fevereiro de 2006

Aniversário de Darren Aronofsky


Só para constar, o diretor Darren Aronofski, uma das últimas grandes revelações do cinema americano, completa hoje 37 anos. O diretor de PI (1998) e Réquiem para um Sonho (2000) vai estar lançando seu novo filme, The Fountain, este ano (após longos 6 anos de espera), uma ficção científica estrelada por Hugh "Wolverine" Jackman - que interpreta três papéis - e Rachel Weisz.

9 de fevereiro de 2006

Cigarette Burns e Thumbsucker

Masters of Horror - Episódio 08 - Cigarette Burns



EUA, 2005. DE John Carpenter. COM Norman Reedus, Udo Kier. 60 min. IDT Entertainment. TERROR.

Cigarette Burns é o episódio número 08 da série Masters of Horror, lançado por um canal americano e que contém, realmente, vários mestres do Horror mundial, como Dario Argento, Joe Dante, John Carpenter, Takashi Miike, entre outros. Cigarette Burns tem seu lado ruim e seu lado bom. O lado ruim é que foi o primeiro que eu assisti, quando eu queria, na verdade, assistir na seqüência certinha. Mas como eu sei que vai demorar um bocado pra série passar no Brasil ou ser lançado em DVD por aqui, resolvi baixar pela internet tudo de uma só vez. O primeiro a chegar foi justamente Cigarette Burns e como não agüentei esperar (e não há ordem seqüencial alguma na série) acabei vendo na hora que chegou. Entretanto, o lado bom é que o filme é excelente. O diretor John Carpenter, inspiradíssimo, dá o tratamento adequado à atmosfera de suspense que o entrecho pressupõe. O argumento do episódio trata de um jovem especializado em encontrar filmes raros que é contratado por um milionário colecionador para achar uma cópia de um filme chamado Le Fin Abolute du Monde. O filme era famoso pelo submundo cinéfilo por ter causado várias atrocidades entre o publico na sua única apresentação. Cigarette Burns já tem a vantagem de ter um ótimo roteiro (que acaba nos fazendo refletetir sobre a nossa condição de cinéfilos) e Carpenter nos presenteia com cenas dignas de antologias. Nota-se também uma produção muito bem especializada com maquiagens e efeitos visuais realistas e chocantes. Enfim, Cigarette Burns é uma das melhores coisas que Carpenter realizou nos últimos anos e espero que os próximos filmes da série tenham a mesma qualidade que essa pequena obra prima.

Por Ronald Perrone



Thumbsucker

e 1/2

EUA, 2005. DE Mike Mills. COM Lou Pucci, Tilda Swinton, Vincent D'Onofrio, Vince Vaughn, Keanu Reeves. 96 min. Columbia. Drama.

Se Impulsividade (o amaciado título em português) não descreve a verdadeira alma deste filme, a tradução do título original não faria mais bonito. Thumbsucker, ou melhor O Chupador de Dedos, faria tanto sucesso quanto uma loja de aquecedores no Deserto do Atacama. Seria mais fiel, entretanto. Lou Pucci (grande vencedor do Urso de Prata do Festival de Berlin e um nome a ser anotado para megaproduções em busca de autoridade indie) brilha como o garoto que tem a bizzarra mania de chupar o dedão como forma de aliviar suas tensões. Ao ser hipnotizado por um dentista hippie (Reeves, revivendo os dias de Bill & Ted) o moleque troca o vício pelas dezenas de atrações da juventude, começando pelo sexo, passando pelas drogas e terminando no desejo profissional em ser o melhor. Uma delicada crítica à passividade da juventude americana, a omissão dos pais e ao sistema educacional na criação de seus adultos.

Por Felipe Mappa

7 de fevereiro de 2006

Brokeback e Syriana

Brokeback Mountain

e 1/2

EUA, 2005. DE Ang Lee. COM Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams, Anne Hathaway. 134 min. EUROPA. DRAMA.

Eles não comem pudim. Também não se ligam em Edson Cordeiro ou mostram interesse pelas últimas cores da moda. Não. Brokeback... é menos romance gay e mais sobre as ilusões amorosas que nos acometem. É, eles se beijam, fazem sexo, trocam afagos e juras de amor. Mas Ang Lee os fez parecer muito mais com os gregos (que tinham na homossexualidade, digamos, um nível a mais na amizade) que com os gays estereotipados já mostrados no cinema.

É chato dizer, mas o modo com que o filme procura discorrer sobre o amor homossexual foi motivo de chacota da platéia (formada em grande parte pelo público homossexual), que ria ironicamente e fazia comentários maldosos – a maioria tinha como alvo as moças do filme -, em suma, não levavam o filme a sério, e creio que nem se o Cristo descesse à Terra o levariam. Mesmo com a ironia do dito “público alvo”, o novo filme do diretor chinês decola. Brokeback Mountain é uma história de amor, independentemente do que se vê na tela, e que, diga-se de passagem, é de uma veracidade espantosa.

Com material de primeira em mãos - um roteiro adaptado do conto da premiada Anne Proulx -, e com a primorosa direção de Ang Lee, todo o jovem elenco entrega fortes atuações: Anne Hathaway tem uma ótima transformação, distanciando-se do estigma da bonequinha de porcelana; Michelle Williams se desfaz das vias de Dawson’s Creek e faz de seu personagem uma das boas atrações do filme; o ótimo Gyllenhaal entrega uma atuação tridimensional com o seu eloqüente Jack; e a grande surpresa - Leadger. Juro que não sacava a do breve momento hype que o australiano ganhou nos anos 90, mas na pele do tímido Ennis só reforça a tese de que o ator não tinha ainda encontrado um papel a altura do seu talento.

O choro do espectador é preterido em lugar de uma pontada aguda de tristeza, uma farpa difícil de tirar e que incomoda para dedéu. Entretanto, o filme não é perfeito. Após a construção do relacionamento dos personagens, a segunda metade se move depressa demais, se comparamos com o ritmo adotado no início. Mas é pouca a queixa para o filme do diretor de Hulk, que tem a razão e a sensibilidade para lhe jogar na cara, assim, sem pudor, a certeza de que não só os brutos héteros também amam.

Por Felipe Mappa



Syriana



EUA, 2005. DE Stephen Gaghan. COM George Clooney, Matt Damon, Christopher Plummer, Jeffrey Wright, Chris Cooper. 126 min. Warner. DRAMA/THRILLER.

Syriana vem chamando a atenção no mundo inteiro com seu tema altamente político e atual. O filme foi escrito e dirigido por Stephen Gaghan, o mesmo roteirista de Traffic (2000), de Steven Soderbergh. Daí, já se pode tirar certas conclusões de como o filme será. Não é preciso nem assisti-lo pra saber que a narrativa é cansativa, há em abundancia um grande numero de personagens. Com tanta gente num mesmo filme, foi preciso de pelo menos uns 50 min para apresentá-los e mostrar ao expectador suas funções, motivos e situações que fazem cada personagem agir e existir. Funciona em muitos filmes quando contém uma narrativa ágil, como em Magnólia (1999) de Paul Thomas Anderson. Em Syriana, um filme lento, extremamente realista, não funciona e vários personagens parecem perdidos e fazem confundir a cabeça do espectador deixando a impressão de uma história confusa, mesmo que o roteiro não seja tão complexo assim.

Dentro de tantas histórias, a única que desperta maior interesse e que abrange maior quantidade/qualidade de situações é a do personagem Robert Baer, vivido por George Clooney, em uma ótima atuação e que vem recebendo elogios por todos os lados. Ele faz o papel de um agente da CIA que investiga terroristas no pelo mundo e que descobre falhas de investigações e interesses de sua própria companhia.

O filme apresenta temas atuais que enriquecem a trama explorando a Guerra das indústrias e dos governos pelo petróleo, atos terroristas e homens bombas e a situação de países do Oriente Médio. Apesar de todos os contras, Syriana não deixa de ser interessante ao final. Porem não vai fazer diferença lá na frente, quando for mais um filme político.

Por Ronald Perrone

6 de fevereiro de 2006

Aniversário de Truffaut



Hoje, um dos ícones do cinema francês, François Truffaut, estaria comemorando 74 anos de idade. Infelizmente, um tumor no cérebro tirou-lhe a vida em 1984. Mas nos deixou de herança uma filmografia repleta de filmes notáveis.

4 de fevereiro de 2006

Aniversário de George A. Romero


Não poderia deixar de comentar que hoje é o dia em que se comemora o aniversário de 66 anos do grande mestre do horror americano, George A. Romero.

2 de fevereiro de 2006

Munique e A Vida Secreta dos Dentistas

Antes das críticas, um adendo sobre as indicações ao famigerado Oscar: a primeira vista, sem surpresas (alguma novidade nisso?). O filme de Ang Lee conseguiu o maior número de indicações da noite do próximo dia 05 de março – oito –, sendo a de filme, direção, ator (Heath Leadger, quem diria), ator coadjuvante (para o ótimo Gyllenhaal), atriz coadjuvante, roteiro adaptado, fotografia e trilha sonora. Daí, Ronald levantou uma questão que, após ponderar, achei válida, e que, de certa forma, contradiz o que disse acima sobre a falta de surpresas: por que Capote e Bennet Miller? Por que não O Jardineiro Fiel e Fernando Meirelles? Ou então Marcas da Violência e David Cronenberg? Ah... Desculpe-me, eu me esqueci do juramento que fiz sobre não mais questionar os motivos obscuros por trás das indicações ao Oscar. No mais, não leve tão à sério. E se ficar enjoado, recorra àquele adoçante alucinógeno que você guarda no armário do banheiro - infalível.

felipe, editor cine art


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Munique

e 1/2

Munich, USA, 2005. DE Steven Spielberg. COM Eric Bana, Daniel Craig, Mathieu Kassovitz, Geoffrey Rush. 164 MIN. Universal. DRAMA

Munique, o novo filme de Steven Spielberg, é um ato de coragem e consciência. Assim como em 1993, quando fez A Lista de Schindler, Spielberg realiza uma obra mais séria e que chama a atenção pela forma que foi filmada. O filme retrata de perto um ataque terrorista que realmente ocorreu nas Olimpíadas de Munique onde um grupo de terroristas palestinos assassinou 11 atletas israelenses. Um tema que, com certeza, não seria do agrado de palestinos. Porém, acompanhamos as investigações de cinco agentes israelenses com uma missão secreta de assassinar todos os palestinos envolvidos no atentado. Mostrando passo a passo as investigações, Spielberg acaba revelando detalhes que também não agradariam aos israelenses. Enfim, Spielberg, apesar de ser judeu, acaba não tomando partido nem para o lado Israelense, muito menos para o lado Palestino. Ele fica no meio do muro. Mas não se prende muito a fatos históricos. Spielberg apenas se baseia no fato para realizar uma obra mais humana.

Assim como em A Lista de Schindler, Spielberg utiliza a violência como artifício para impressionar ou chocar o espectador. Munique é seu filme mais violento. Facada na cabeça, tiro na boca, corpos explodidos e metralhados. Tudo mostrando de forma explicita, muito bem produzido e realista. Sua avó vai adorar. A violência do filme soa mais como um bônus. Um detalhe a mais, pois o roteiro por si só, já deixa um gosto ruim na boca. O personagem interpretado por Eric Bana, Avi, não faz o tipo de herói estereotipado e não nos causa tanta identificação quanto ao seu trabalho, principalmente quanto a sua moral. E ao final do filme estamos esgotados, e não é por causa da longa duração, mas de presenciarmos todas as situações relatadas na tela.

Eric Bana, que é um ator mediano, está muito bem no papel que lhe coube e consegue criar as metamorfoses de personalidade necessárias que o personagem sofre devido as situações que passa. Ainda há a ótima presença do ganhador do Oscar Geoffrey Rush, num papel elegante. Todo elenco está afiado e tem a presença de Daniel Craig, o novo 007 e o diretor Mathieu Kassovitz.

Se em A Lista de Schindler, Spielberg havia atingido, em termos de direção, o grau de diretor maduro, aqui ele ganha o grau máximo de maturidade. Spielberg é arte. Tornou-se arte. É arte na hora que quiser. Espero que seja sempre, daqui pra frente. Mas eu sei que é só um sonho. Juntamente com o diretor de fotografia, Janusz Kaminski, Spielberg cria imagens com angulos interessantes e movimentos ousados, porém tudo tem um resultdo feio, azedo (principalmente nas cenas de ação) diferente do seu próprio cinema, e isso é um elogio.

Diferente também do seu convencional, é o desfecho da obra. Em todos os seus filmes, Spielberg dá um jeito de concluir com um final feliz, mesmo os seus filmes mais sérios como em A Lista de Schindler, no qual os judeus que Oscar Schindler conseguiu salvar são mostrados com grande otimismo, ou em O Império do Sol onde a criança consegue encontrar seus pais. Em Munique Spielberg nos entrega uma obra pessimista, realisticamente cruel. Temos a impressão que o mal não tem fim e nem lugar. A guerra não se concentra em um só ponto, mas se expande para todo mundo. Quando sobem os créditos, vemos Nova York, cidade onde Avi se refugia, e as torres gêmeas ainda intactas. Aguardando a sua hora...

Por Ronald Perrone



A Vida Secreta dos Dentistas

e 1/2

The Secret Lives of Dentists, EUA, 2002. DE Alan Rudolph. COM Campbell Scott, Hope Davis. 110 min. DRAMA.

O drama de Alan Rudolph – talentoso discípulo do mestre Robert Altman – apresenta uma abordagem singular e metafórica de uma crise conjugal protagonizada por dentistas (Scott e Davies, premiados pela crítica de Nova York junto com o roteiro). O casal trabalha no mesmo consultório e vive num lar aconchegante ao lado das três filhas pequenas. A crise irrompe quando ele começa a desconfiar da fidelidade da companheira e decide levar a situação em banho-maria, esperando ver no que vai dar. Age como um sujeito que sabe que seu dente está doendo, mas só toma mesmo a providência quando ele começa a doer. Um eficiente recurso narrativo, já utilizado por Wood Allen em Sonhos de Um Sedutor, transforma um paciente inconveniente (Leary) no alter ego invisível do protagonista. Quando ele surge do nada para palpitar nas situações mais agudas, a coisa fica mais divertida.

Por Felipe Mappa