30 de outubro de 2006

A Scanner Darkly

A Scanner Darkly



EUA, 2006. DE richard Linklater. COM Keanu Reeves, Robert Downey Jr., Woody Harrelson, Winona Ryder. 100 min. Warner. ANIMAÇÃO/FICÇÃO.

Em 2001, Waking Life apresentou um novo conceito em termos de animação e do próprio cinema. Da mesma maneira, o diretor Richard Linklater repete o processo em A Scanner Darkly, que passou na Mostra Internacional de cinema em São Paulo este ano. O processo que o diretor utilizou nos dois filmes citados consiste numa técnica chamada rotoscópia. Linklater dirige atores reais que encenam de maneira tradicional como um filme qualquer, e depois, seus fotogramas são duplicados sob a forma de animação. Se em Waking Life o resultado gerava delírios visuais, A Scanner Darkly consegue ir além. A técnica (bem melhor utilizada hoje) permite que o diretor brinque com a estrutura do filme mostrando o que é realidade e alucinação sem que o público note o limite de cada um, e além disso, consegue dar realismo a um filme que, na verdade, não deixa de ser uma animação, causando um ar irônico mesmo nos momentos mais sérios.

A Scanner Darkly é baseado numa obra de Phillip K. Dick, um dos mestres da ficção científica na literatura. Mas ao invés de enfatizar um mundo futurístico e tecnológico, Linklater sintetiza seu filme em situações das mais simples e cotidianas, deixando a verdadeira trama em segundo plano. O que poderia ser um filme totalmente complexo em forma e gênero de suspense policial futurista, o diretor resolveu simplesmente simplificar deixando o filme mais interessante, reflexivo sem perder a estranheza e a complexidade necessárias para as conclusões finais e a sensação de desconforto causadas durante o filme.

Por Ronald

24 de outubro de 2006

El topo, Warriors e Martin

Apenas algumas observações para não deixar o blogue estagnado... mas nada consistente, estou sem saco pra isso...

El Topo (1971, Alejandro Jodorowski)



Minha primeira experiência cinematográfica com Jodorowski. E que experiência! El topo é um western mítico repleto de simbolismo que se tornou cult no início dos anos setenta pelas imagens impactantes de violência e sexo. Diferente do Western Americano, El Topo se identifica mais com o Western Spaghetti, porém, mais bizarro. O personagem central (o próprio Jodorowski) é um pistoleiro que vaga todo vestido de preto deixando um rastro de sangue e corpos por onde passa. Inclusive quando decide enfrentar os mais sábios pistoleiros do deserto mexicano, onde surgem os mais diversos personagens que parecem ter saído de um Freak Circus Show. Uma verdadeira e profunda viagem ao surreal. Buñuel deve ter ficado com inveja.



The Warriors (1979, Walter Hill)



Uma aventura alucinante que retrata de maneira caricata e estilizada a violência e o submundo das gangues. Os grandes lances de The Warriors são os comportamentos, os uniformes, a busca de uma identidade pelos jovens da periferia dentro de um grupo do qual se identificam, detalhes que enriquecem o filme que, aparentemente, só haveria motivo pra porradaria. A história é intrigante e chamativa por si só. Durante um evento promovido com o objetivo de reunir todas as gangues de Nova York, o líder da mais importante é assassinado em pleno discurso. A culpa cai justamente sobre os Warriors, uma pequena gangue suburbana que deve tentar voltar para seu bairro enquanto são caçados por todas as outras gangues. O final é um pouco broxante, mas ainda vale pela tensão que o diretor consegue impor durante todo o filme sem deixar a peteca cair.

Martin (1978, George A. Romero)



Filme seco e bem objetivo. Sem enrolação, o filme conta a história de Martin, um jovem que vai morar na casa de um tio. Este acredita de pés juntos que Martin é um perigoso Vampiro com mais de cem anos. Coloca Alho nas portas, chama um padre para exorcizar o pobre rapaz e no final parte pra ignorância. Apesar da superficialidade do roteiro, Martin tem seus momentos virtuosos e criativos e se estrutura no clima de suspense que o diretor cria. Nota-se uma economia de recursos, mesmo assim, Romero não nos poupa de uma boa dose de violência e muito sangue. O filme merecia maior destaque entre os outros da filmografia do diretor. Não me lembro de ter visto algo a respeito desse filme em nenhum blogue ou site brasileiro. Então fica a dica para os fãs do terror de plantão.

Por Ronald

12 de outubro de 2006

A Dália Negra

A Dália Negra



The Black Dahlia, EUA/ALE, 2006. DE Brian de Palma. COM Josh Hartnett, Aaron Eckhart, Scarlett Johansson, Hilary Swank. 121 min. Universal. POLICIAL.

E chegamos à Dália Negra, novo filme do Brian de Palma e um dos mais aguardados do ano. Eu, Como fã do diretor, cheguei cedo ao cinema, mas tive que esperar a patroa, atrasada como sempre. Ela chegou quando o filme estava começando e quase atrapalhou o plano inicial, um belíssimo traveling (entre tantos outros que compõem um filme tecnicamente brilhante) e com uma narrativa em off, característico do filme Noir dos anos quarenta e cinqüenta. O cineasta, que não realizava nada de interessante desde O Pagamento Final (apesar de gostar de Femme Fatale), não só recria estéticamente o estilo, como seu filme parece ser feito na época de áurea do gênero. Só faltou mesmo o preto e branco para que o Noir ressurgisse das cinzas em meio ao cinema atual.

E como um bom Noir, A Dália Negra possui uma história um tanto embaralhada que confunde a cabeça do público. Um dos motivos que trouxe algumas críticas negativas ao filme. O público de hoje não conhece o Noir e acha que todos os filmes precisam de uma história bem traçada, florida e amarradinha. A história é relevante, não importa. O que importa sãos os elementos que compõem cada cena, que dão vida a um estilo morto, e que só Brian de Palma, um dos grandes mestres do cinema americano ainda em atividade, conseguiria trazer as telas. E foi com sacrifício. Três anos juntando grana para filmar a adaptação do livro de James Ellroy.

Brian de Palma sempre foi o rebelde entre os diretores americanos. Fazia filmes vendidos para o grande público, porém totalmente subversivos, autorais, quase nunca foram bem de bilheteria e nem sempre eram recebidos positivamente pela crítica. Mas ganhou status de cult por um grupo de cinéfilos e críticos mais inteligentes. É um dos principais influenciados pelo cinema de Hitchcock e em seus melhores filmes sempre prestou alguma homenagem ao mestre do suspense. A Dália Negra também não fica muito atrás. Foi mal recebido nos cinemas. Normal. Melhor assim. Iria estranhar se não fosse.

A Dália Negra é compilação das obsessões do diretor com os elementos Noir. Estão lá as situações intrigantes, as investigações policiais que parecem nunca dar em nada, atuações exageradas dos canastrões, a femme fatale, os diálogos ambíguos, os ambientes escuros, a estética expressionista, tudo isso somado às preferências de Brian de Palma, detalhes que ele coloca só para incomodar, como por exemplo, o fato de os personagens repetirem a todo instante que a vítima assassinada e uma outra personagem tinham uma aparência semelhante, sendo que, as duas atrizes não tinham nada de comum e isso era visível pra quem quisesse notar.

Além disso, a escalação de Josh Hartnett como o policial que investiga o assassinato com seu parceiro, interpretado por Aaron Eckhart, foi um ponto dos mais criticados. Ele é jovem e não possui o ar canastrão necessário para o personagem. Claro que um ator “Bogardiano” seria perfeito para o papel, mas é inserido aqui um outro tipo de herói dentro do Noir. Um herói mais idiota, um verdadeiro estúpido e não um Robert Mitchum ou Humphrey Bogart, exemplos de estereótipos do estilo. Já Eckart consegue uma atuação mais exagerada e expressiva, mesmo que em alguns momentos soe falsa, uma atuação interessante. Scarlett Johansson não aparece muito inspirada, tampouco expressiva; e Hilary Swank consegue encarnar uma bela femme fatale. Não é uma Verônica Lake ou Barbara Stanwyck, mas tudo bem.

A direção é primorosa. Brian de Palma é um diretor que possui uma visão de movimento de câmera que por si só, segura o filme inteiro. Ele consegue criar uma excitação em cenas tão simples que fica fácil deixar os seus admiradores em êxtase em cenas tensas e atmosféricas, como na cena da escadaria. A fotografia de Vilmos Zsigmond é fiel ao extremo ao estilo noir e sua composição de luz, sombras e cores recriam a época em que o filme se passa com perfeição. E são nesses detalhes que A dália Negra se firma, é onde o filme é estruturado. Na técnica, na estética, nos elementos que estão rodeando e que formam a verdadeira trama. Essa é a essência do Noir e Brian de Palma conseguiu captar perfeitamente, mesmo que o publico de hoje não seja mais preparado para esse tipo de experiência.

Por Ronald

10 de outubro de 2006

O Lobo

e ½

El Lobo, Espanha, 2004. DE Miguel Courtois. COM Eduardo Noriega, Silvia Abiscal, Jose Coronado. 123 min. Paris/LK-TEL. SUSPENSE.

Contando uma história verdadeira, O Lobo sobressai-se por ser um dos poucos filmes exibidos em terras tupiniquins que trata da ETA, a radical organização basca que há vários anos luta pela própria independência daquela região do norte da Espanha. Os preceitos ideológicos do movimento separatista, que já foi responsável por muitos atentados terroristas, chegam a ser expostos com uma certa didática no início, mas são diluídos em função do problema central: a conduta de Txema (Nogueira, do bom Plata Queimada). O cidadão, empregado da construção civil, preocupava-se em levar a sua vida e manter a distância de qualquer manifestação política. Mas um incidente acaba o tornado um ativista à rivelia. Mais tarde, preso em uma operação da ETA, é coagido a ser informante para as autoridades do governo do ditador Franco. Ao acompanhar durante vários anos esse jogo duplo que perturba a vida familiar de Txema, a fita de Miguel Courtois resulta em um bom suspense, captando de forma precisa a força das circunstâncias em contextos abalados por conflitos e guerras internas. E, embora resvale às vezes em certo maniqueísmo, expõe sem fazer julgamento moral não só a conduta de um delator, mas também os processos de manipulação e de luta pelo poder que existem tanto em grupos políticos aparentemente com motivação patriota, como entre as autoridades de qualquer regime.


Por Felipe

7 de outubro de 2006

Dragão Vermelho

Dragão Vermelho, aka Caçador de Assassinos



Manhunter, EUA, 1986. DE Michael Mann. COM William L. Petersen, Brian Cox, Dennis Farina. 119 min. SUSPENSE

Bem, esqueçam aquela versão do Dragão Vermelho de 2002 estrelada por Edward Norton, Anthony Hopkins e Ralph Fiennes, por mais clichê que essa frase possa soar. Estamos falando de um filme de verdade. Um dos melhores suspenses/policiais dos anos oitenta. Conta com a direção mais que segura de Micheal Mann, já testando seus enquadramentos pictóricos que hoje em dia atingem seu ponto máximo com o formato digital em filmes como Miami Vice.

Lançado recentemente no Brasil em DVD com o nome Caçador de Assassinos, o filme apresenta pela primeira ao publico, o personagem Hannibal Lecter, o famoso psiquiatra que comia suas vítimas (não pensem besteiras, comia mastigando e temperado com sal, pimenta e couve... delícia!). Hannibal ficou imortalizado na pele de Anthony Hopkins em O Silencio dos Inocentes. Mas é aqui, vivido por Brian Cox, que ele aparece pela primeira vez diante dos espectadores. Cox tem uma de suas melhores atuações, mas não muito explorada por Mann, infelizmente. Porém, os poucos momentos em cena são suficientes para que o ator construa um personagem doentio e profundo, muito bem explorado por Jonathan Demme no já citado O Silencio dos Inocentes.

Já que Hannibal aparece tão pouco, o resto do filme é um ótimo suspense onde o policial Will Graham, que prendeu o psiquiatra canibal, tem de voltar à ativa para desvendar mais uma série de assassinatos brutais e misteriosos. A especialidade de Graham é justamente a capacidade de entrar na mente do assassino e descobrir os motivos que o leva a cometer tais crimes. O problema é que Grahan provoca conseqüências terríveis para a sua mente. Por isso havia se afastado do FBI e necessitou de vários tratamentos psicológicos após prender Hannibal. Mas ele é o único que possivelmente pode descobrir esse novo caso e para isso, faz algumas visitinhas ao velho Hannibal, assim como Jodie Foster faz em O Silencio dos Inocentes.

Apesar de gostar bastante da aventura da agente Clarice Starling (Jodie Foster), Dragão Vermelho é incomparável e é, de longe, o melhor filme da série. Micheal Mann faz um trabalho de mestre e cria cenas memoráveis, como a cena do sujeito sentado na cadeira de rodas em chamas em direção a tela. Arrepiante. É o horror no melhor sentido possível da palavra.

Por Ronald

5 de outubro de 2006

O Reino dos Gatos

Ok, pare de suplicar aos céus. I'm back, baby...

felipe, editor especial cine art


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O Reino dos Gatos


The Cat Returns, Japão, 2002. DE Hiroyuki Morita. 75 MIN. Europa. ANIMAÇÃO



O "homem" do anime, Hayao Miyazaki, homenageado no Festival de Veneza no ano passado, assina a produção desse desenho inventivo e indicado para as crianças maiores e menores de 80 anos. E nem é novidade, portanto, que o filme possua tantos pontos em comum com o premiado A Viagem de Chihiro, dirigido e escito por Miyazaki: a personagem central é uma mocinha, existe uma pá de personagens bizarros em um mundo fantástico onde ela aprende sobre a vida e sobre si mesma. A aventura tem seu ponto de partida quando a garota salva a vida de um gato sem saber que o bichano é o príncipe de um mundo só de felinos (!). Mais leve e acessível que Chihiro, a aventura prende a atenção do início ao fim, seja pela qualidade da animação ou pela criatividade do espetacular roteiro.


Por Felipe