30 de março de 2006

Poesia, Nicotina e...

Intro (por felipe e aline)

"Vazio aqui.
Calor e fadiga.
Rotina maldita.
Ferida exposta ante a lida,
Lida mal paga.
Fim do dia, vejo marcas.
A noite vem,
Negra, África.
Noite fria, frio que arde;
Senhora implacável.
Solidão domina,
Risca sua superfície.
E permanece.
Deixando apenas...
Calor.
Fadiga.
Rugas.
Estás nua, novamente."

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Só pra variar...

felipe, editor cine art


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Nicotina

e 1/2

Nícotina, México, 2003. DE Hugo Rodriguez. COM Diego Luna, Lucas Crespi, Carmen Madrid. 93 min. Paris Filmes. DRAMA.

Que o cigarro faz mal, bem, eu já sei. Mas em Nicotina, longa mexicano realizado há quase três anos pelos mesmos produtores de Amores Perros, o bastonete cancerígeno mostra que pode transformar seus consumidores em seres encurralados pelo desejo irracional e inconseqüentes de suas ações. Como único nome mais conhecido do elenco, Luna vive o protagonista Lolo, um jovem cracker (não, não um usuário de crack, e sim um "hacker" do mal) obcecado pela vizinha, a qual ele controla por meio de câmeras e microfones no melhor estilo Invasão de Privacidade. Seus comparsas, Nenê e Tomson, tem longas discussões existenciais sobre o cigarro enquanto o aguardam para realizar a troca de um CD com códigos bancários por diamantes da máfia russa. Esta é a trama principal que se mistura a outras duas secundárias – uma barbearia e uma drogaria, ambas com fumantes ou guerreiros contra o vício – que também divertem com o humor negro e algumas piadas de situação do cotidiano de uma grande cidade. A mistura de histórias, seus curiosos personagens, as inúmeras e engraçadas reviravoltas fazem de Nicotina uma boa alternativa ao cinema americano tradicional.

Por Felipe Mappa

28 de março de 2006

Wlak the Line e Dark Star

Johnny & June
e 1/2

Walk The Line, EUA, 2005. DE James Mangold. COM Joaquin Phoenix, Reese Wintherspoon. 136 min. FOX. DRAMA.

Johnny Cash é uma das grandes lendas da música mundial. Virou o country de cabeça para baixo com o seu dedilhado rápido e constante, e letras que passam longe das adocicadas do gênero. Era facilmente visto com Elvis, Roy Orbison, Dylan, Lewis... Enfrentou problemas com drogas não só uma, mas três vezes. Foi ator, apresentador de programas e reverenciados por roqueiros como U2 e Nine Inch Nails. A riqueza da vida de Cash nunca caberia em um longa de duas horas e é essa sensação vazia que incomoda em Johnny & Hune.

O filme do diretor James Mangold (do bom Garota Interrompida) é uma obra sólida, bem construída até para quem nunca ouviu “Walk The Line” ou “Hurt”, mas peca justamente por se apoiar no maldito “Manual de Biografias das Celebridades Mortas” da atualidade que Ray fez melhor: pegue um gênio atormentado (Cash, vivido pelo ótimo Phoenix, que sofre com a perda do irmão mais velho); adicione um problema com as mulheres (no caso de Cash, June Carter, na medida por Witherspoon); divida por uma batalha intensa contra as drogas; multiplique por um bocado de ótimas canções e eleve ao quadrado com referências a outros grandes mitos da música.

Dentro desse formato quase sempre restrito, Jhonny & June escapa da mediocridade, porém nunca alcança a genialidade.

Por Felipe Mappa



Dark Star



Dark Star, EUA, 1974. DE John Carpenter. COM Brian Narelle, Cal Kuniholm, Dre Pahich, Dan O'Bannon. 83 min. USC. FICÇÃO CIENTÍFICA.

Em seu primeiro longa, John Carpenter nos brinda com uma divertida e até mesmo poética (?) sátira de ficção científica. Levando em consideração que Carpenter ainda era um estudante de cinema e não tinha recursos para uma superprodução, Dark Star é no mínimo obrigatório para os fãs do diretor de Halloween, Fuga de Nova York e muitos outros filmes que de Horror, Ficção e Ação que constituem de uma característica própria do diretor. E tudo começou nesta pequena obra. Aliás, muitos detalhes de direção, mise en scène, que Carperter utilizaria em filmes posteriores podem ser conferidos em Dark Star como forma de experimentação.

Um grupo de astronautas barbudos, tripulante da nave Dark Star, vaga pelo espaço destruindo planetas instáveis para a colonização espacial. Além de situações clichês de filmes de ficção (porém muito bem elaboradas), o filme mistura outras situações que, até então, não era muito observada em filmes de ficção como o cotidiano dos personagens.

Os efeitos especiais toscos (que dão um charme e geram boas risadas), as idéias, a forma, os sons, as situações criadas dão ao filme um ar cult. Até mesmo um ser alienígena feito de uma bola de plástico consegue criar uma tensão sem deixar de ser bizarro e engraçado. Sem esquecer também da trilha sonora do próprio Carpenter, principalmente para dar o tom de suspense. O final pessimista é, ao mesmo tempo, libertador (a parte poética). Não teria o mesmo resultado se fosse feito hoje em dia com efeitos especiais de ponta.

Por Ronald Perrone, o saudosista

25 de março de 2006

Rocco e Noites Brancas

Rocco e Seus Irmãos

1/2

Rocco e i suoi fratelli, ITA, 1960. DE Luchino Visconti. COM Alain Delon, Renato Salvatori, Claudia Cardinale. 177 min. Versátil. DRAMA.

Existiram (e ainda existem) vários diretores que não se arriscaram à criação de um novo processo cinematográfico, e isso não é nenhum problema, contanto que o diretor saiba controlar seu filme de uma maneira segura e agradável como foi o caso do italiano Luchino Visconti. Rocco e Seus Irmãos é um elogiável clássico e é a prova de que Visconti é um grande mestre.

Rocco e Seus Irmãos é o filme mais Marxista da filmografia de Visconti (apesar do escriba aqui, não ter visto todos os filmes do diretor). Conta a história de uma família que chega a cidade grande e tem de sofrer às duras penas com trabalho e a adaptação para conseguir o sustento.

Alain Delon é o Rocco do título e faz um trabalho de construção para o papel de forma admirável. O elenco, na sua totalidade, está excelente e ainda tem uma pequea presença de Claudia Cardinale.

Apesar da longa duração (quase três horas), Visconti conduz a história de maneira prazerosa em relação à estrutura e da ordem em que os fatos ocorrem, pois são muitos personagens para distribuição em cena. Mas Visconti tira de letra. A simplicidade e o classicismo de Visconti é o que torna Rocco e Seus Irmãos um filme sólido e sempre atual. É um dos seus melhores trabalhos, uma consumação perfeita.

Por Ronald Perrone



Noites Brancas



Le Notti bianche, ITA, 1957. DE Luchino Visconti. COM Marcello Mastroianni, Maria Schell, Jean Marais. 107 min. Intermondia Films. DRAMA.

Seu primeiro título no Brasil era Um rosto na Noite. Mas hoje, é conhecido como Noites Brancas. Dirigido por Luchino Visconti e baseado na obra homônima de Dostoievski. O filme capta a relação entre Mário (Mastroianni) e Natália (Schell). Mário é um personagem solitário que vaga pelas noites frias e vazias até que encontra a ingênua Natália, que chora a espera de seu grande amor nas madrugadas de inverno.

Tecnicamente, Noites Brancas é perfeito. A fotografia de Giuseppe Roturno é delirantemente bela e consegue imagens impecáveis. Mastroianni e Schell estão excelentes e o ator de A Doce Vida demonstra porque foi um dos melhores atores de todos os tempos. Seu papel é o mais psicológico e Mastroianni o faz com naturalidade. A direção de Visconti é tradicionalmente clássica, sem qualquer tentativa de evolução em termos de linguagem cinematográfica, apesar de ter todo um domínio próprio de sua linguagem. Uma linguagem poética que dá o titulo de mestre.

Noites Brancas não agradou muito a critica da época por achar Visconti distante de Dostoievski e por não adotar sua selvageria psicológica (eu nunca li o livro, mas já li Dostoiévski), entretanto, a simplicidade e a poesia visual é que torna Noites Brancas atual e belo ainda para os nossos dias.

Por Ronald Perrone

23 de março de 2006

Uma Mulher Sob Influencia

Uma Mulher Sob Influencia

1/2

A Woman Under the Influence, EUA, 1974. DE John Cassavetes. COM Peter Falk, Gena Rowlands, Fred Draper. 155 min. Faces. DRAMA.

John Cassavetes talvez seja um dos mais importantes diretores independentes, porém, aqui no Brasil, suas obras são desconhecidas e quase não são lembrados nas rodas de cinéfilos, com alguma exceções. Uma Mulher sob Influencia foi o único que eu tive a oportunidade de ver.

O que se percebe é um minimalismo em relação às situações espetaculares. Dramas humanos e cotidianos com personagens realistas fazem parte da essência desta bela obra, cujo roteiro, o próprio Cassavetes escreveu.

Nick (Falk) é um pai de três filhos e casado com Mabel (Rowlands), uma mulher com comportamentos um pouco estranho. Tenta ser gentil com todos, porém está presa à sua loucura e não percebe os limites da sobriedade. Cassavetes conduz magistralmente as situações insanas da protagonista de forma sutil e sem exagerar em forçar um sentimentalismo. Graças a Gena Rowlands que realiza uma complexa e difícil atuação, e a concretiza de maneira maravilhosa.

Uma Mulher sob Influencia é um filme simples em termos de estética e forma, mas é um trabalho cujas cenas, diálogos, movimentos e técnicas provam a liberdade artística de Cassavetes, um diretor independente do sistema Hollywoodiano e propriamente criativo.

Por André Bazin

21 de março de 2006

Barton Fink - Delírios de Hollywood

1/2

Barton Fink, EUA, 1991. DE Joel Coen. COM John Turturro, John Goodman, Judy Davis, Steve Buscemi. 116 min. Working Title Films. DRAMA/SUSPENSE.

A obra prima dos irmãos Coen é Barton Fink (91), um clássico moderno sobre o submundo dos filmes B de Hollywood na década de 40. Numa de suas melhores atuações, John Turturro é o personagem título, Barton Fink, o dramaturgo mais elogiado pela crítica e pelo publico da Broadway. Ao receber o convite de uma produtora, ele parte pra Hollywood para fazer um roteiro de um filme B sobre luta livre. A falta de inspiração é um dos grandes problemas que Fink começa a sofrer ao sentar em frente a sua máquina de escrever, além de acontecimentos bizarros que se iniciam envolvendo um assassinato, um calor infernal e um estranho vizinho.

A maior virtude dos irmãos Coen (Joel e Ethan) é a construção dos personagens. Cada um é criado com tantas características que bastam colocar atores talentosos para dar tom perfeito, como John Goodman, Judy Davis, Tony Shalhoub e Steve Buscemi. Além de John Turturro que ganhou o prêmio de melhor ator no festival de Cannes com a sua interpretação.

Barton Fink surgiu na mente dos irmãos justamente quando os dois passavam por uma crise de criatividade ao escreverem o filme de gangster O Ajuste Final (90). Mas inspiração é que não faltou ao dirigir Barton Fink. Uma direção segura e simples deu a Joel Coen o premio de melhor diretor em Cannes. O filme também tem uma direção de arte impecável que passa uma sensação escatológica e nauseante dos cenários escuros e misteriosos. O filme ainda ganhou a Palma de Ouro em Cannes, sendo o único, até então, a receber os prêmios de melhor filme, diretor e ator.

Barton fink é um dos melhores filmes produzidos nos Estados Unidos nas ultimas décadas comprovando o talento dos jovens diretores e roteiristas que realizaram ainda algumas obras primas como Na Roda da Fortuna, Fargo e O Homem que Não Estava Lá, mas nenhum com a qualidade fílmica que obteve Barton fink.

Por Ronald Perrone

16 de março de 2006

David Cronenberg


Ontem, dia 15 de março, o diretor Canadense David Cronenberg aniversariou e completou 63 anos de uma vida de recheada de bizarrices cinematográficas. Calafrios (1975), Rabid (1977) e Filhos do Medo (1979) fizeram de David Cronenberg um cineasta cult entre os admiradores dos filmes de Horror e Ficção Científica. Mas foi em Scanners (1981), Videodrome (1983) e A Hora da Zona Morta (1983) que ele conseguiu popularidade sem comprometer o enfoque característico de seus filmes. Já na refilmagem do clássico A Mosca (1986), foi notável pela sua compaixão com os personagens e o tema. Em Gêmeos – Mórbida Semelhança (1988) mostrou sua profundidade como roteirista, sendo escolhido tanto para adaptar quanto para dirigir o “infilmável” livro, O Almoço Nu, de William Burroughs, no seu Mistérios e Paixões (1991). Dramas humanos com características bizarras e mórbidas como M Butterfly (1993) e Crash – Estranhos Prazeres (1996) demonstraram a segurança de Cronenberg em recriar atmosferas densas em situações dramáticas. Em eXistenZ (1999) Cronenberg volta à ficção cientifica sem perder o vigor e em Spider (2002) realiza um incrível suspense psicológico. Em 2005 nos presenteou com seu ultimo trabalho lançado, Marcas da Violência, um violento drama familiar e um dos melhores filmes de sua carreira.

Dos filmes que eu vi, segue um Top Cronenberguiano:

Mistérios e Paixões
Crash - Estranhos Prazeres
Marcas da Violência
A Mosca 1/2
Videodrome 1/2
Calafrios
eXistenZ
Spider

Por Ronald Perrone

14 de março de 2006

Garden State e THX 1138

Garden State



EUA, 2004. DE Zach Braff. COM Zach Breff, Natalie Portman, Ian Holm, Peter Sarsgaard. 102 min. Buena Vista. COMÉDIA.

Quando visitou o Brasil em 2002 para divulgar a série Scrubs, o ator Zach Braff, que vive o bocó doutor J.D., era o mais distante entre seus colegas de elenco. Em todas as fotos de divulgação era notável: ele parecia definitivamente estar com a cabeça longe da obrigatória viagem de divulgação. Ao menos agora já se sabe o que ocupava a cabeça do bonito além do jet lag: a incursão no cinema como realizador independente - é ele quem assina, dirige e atua em Garden State, filme com toques de comédia dramática e romântica e que foi a sensação do Festival de Sundance em 2004. Como cineasta de primeira viagem, Braff - que está em The Last Kiss, do também ator Tony Goldwyn e roteiro do oscarizado Paul Haggis - cede a vícios de diretor moderninho (personagens excêntricos, câmera ora acelerada, ora lenta, a seleção musical pop-alternativa), mas realiza uma obra honesta e que aponta para um futuro deveras promissor.

Zach Braff vive Andrew Largeman, um aspirante a ator em Los Angeles que se sustenta como garçom. Sua rotina pe servir mesas, fazer testes e se intupir de lítio e outros remédios receitados por seu pai psicanalista (Holm), com quem não fala há anos. Largeman vive uma existência de zumbi, num limbo de drogas que ele resolve deixar para trás qo retornar para casa por ocasião do enterro da mãe. Longe dos medicamentos, Largeman recupera o contato social com amigos de juventude (como o coveiro vivido por Sarsgaard) e ainda se envolve com uma menina tão desajustada quanto ele (Portman, desajustada, mas bela, sempre) – ou seja, o rapaz sente gosto por voltar a viver e toma coragem para confrontar o pai, que o mantém medicado por conta de um trauma de infância.

O filme em si é sobre a falta de comunicação entre pai e filho e o quanto isso pode tolher as duas vidas em questão. Ainda assim, Braff deixa o conflito de Andrew e o pai para segundo plano, preferindo mostrar o acordar para a vida do protagonista. Nuna seqüência, o diretor cita outro personagem castrado pelo pai, o Cameron do eterno Ferris Bueller’s Day Off, ao mostrar Largeman dormindo em um quarto todo branco com uma secretária eletrônica ao lado – exatamente a mesma cena do clássico dos anos 80. São momentos bem sacados como esse que deixa claro que Zach Braff tem talento para contar histórias.

Por Felipe Mappa



THX 1138



EUA, 1971. DE George Lucas. COM Robert Duvall, Donald Pleasence, Maggie McOmie. 88 min. Warner. FICÇÃO CIENTÍFICA.


O mundo criado por George Lucas em seu primeiro longa metragem é assustador. Apesar de ser um filme futurista, Lucas afirma que filmou THX 1138 (1971) imaginado como uma metáfora para o modo de vida na época (inicio dos anos 70). o cinema americano passava por um período de mudança. os jovens diretores tinham que sair do sistema hollywoodiano para realizar algo criativo e experimental, o que é o caso do jovem Lucas e de diretores como Steven Spielberg, Francis F. Coppola, Martin Scorsese, Brian de Palma, etc. Junto com Francis F. Coppola, o diretor de Star Wars fundou a produtora Zoetrope e assim nasceu a esperança de THX 1138.

O filme conta a história de THX 1138, vivido por Robert Duvall, um cidadão simples que vive numa sociedade no qual a mente e o corpo são controlados pelo governo. O controle é feito através de poderosas drogas que são obrigatórias para todos os cidadãos. Além disso, qualquer forma de liberdade e amor são crimes gravíssimos. Há algumas mensagens tiradas dessas situações como a questão de liberdade, mas não esperem nada forçado como em Coração Valente, por exemplo. As mensagens estão lá para serem percebidas e não expostas.

Uma das proezas do filme é a excelente direção visionária de George Lucas, experimentando várias técnicas e enquadramentos dando um belo tratamento de imagem. Sua visão de futuro é simples e minimalista, em alguns momentos o cenário é um branco total e todos os habitantes deste futuro possuem as cabeças raspadas. Seus filmes subseqüentes foram mais aceitos pelo publico, porém THX 1138 é, de longe, o seu melhor trabalho (sim, melhor até que a série de Star Wars, pelo menos pra mim...) e foi redescoberto graças aos aprimoramentos digitais de restauração e o lançamento em DVD no Brasil, ano passado, numa versão dupla e recheada de extras.

Por Ronald Perrone

9 de março de 2006

Os Pássaros e Match Point

Carnaval supimpa. Surpresas no Oscar. Correria (bem, essa é costumeira). Sejam bem-vindos à 2006!

felipe, editor especial cine art


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Os Pássaros



The Birds, USA, 1963. DE Alfred Hitchcock. COM Tippi Hedren, Rod Taylor, Jessica Tandy, Veronica Cartwrigh. 119 min. Universal. SUSPENSE.

Como uma história tão absurda como a do filme Os Pássaros, pode ser tão importante para o processo cinematográfico e ainda, para a história do cinema?

Numa pequena cidade, Bodega Bay, ao norte de São Francisco, pássaros de várias espécies declaram guerra à humanidade. E como pano de fundo, uma historinha de amor entre dois personagens em meio a toda situação.

Porém, não é nessa história que está a atenção principal. É o que está por trás dela, nos detalhes técnicos e nas imagens puras e simples. As situações fenomenológicas acontecem, e pronto. Isso é o cinema. Isso é Hitchcock em busca do seu processo próprio, sem influências.

Os Pássaros é um espetáculo sem limites a cada plano. Sem a utilização de qualquer trilha sonora durante toda a projeção, Hitchcock cria um ambiente realista, com personagens definidos em meio a uma situação absurda, porem, sem divagar metafisicamente nem arranjar explicações. Os pássaros são pássaros e só. Hitchcock posiciona sua câmera em lugares fora do comum e a cada take é uma revelação que cria cenas antológicas como:

a) O ataque dos pássaros após a explosão do posto de gasolina. Brilhantemente conduzida por Hitchcock, que inicia a cena num incrível panorama subjetivo dos próprios pássaros. b) O ataque brutal dos pássaros em Tippy Hayden no sótão. c) O magnífico e inesperado final apocalíptico no silencio das aves.

Os Pássaros é um desses filmes que estão na linha de frente na filmografia de Alfred Hitchcock como Janela Indiscreta, Um Corpo que Cai, Rope e Psicose. Um clássico absoluto do mestre do suspense.

Por Ronald Perrone



Match Point

e 1/2

Inglaterra/Luxemburgo, 2005. DE Woody Allen. COM Jonathan Rhys-Meyers, Scarlet Johansson, Emilly Mortimer, Brian Cox, Mathew Goode. 124 min. Playarte. DRAMA.

Nada como uma mudança de ares. Woody Allen, ao deixar Nova York, seu cenário preferido, também abandonou a inércia que pareceu tomar conta de seus últimos filmes – apesar de Melinda e Melinda ter faíscas do velho diretor. Em Londres, Allen se vestiu de Alfred Hitchcock para compor um grande thriller sobre desejo, ambição, acaso e discrepância cultural – todos os ingredientes que o cinema britânico ama e constrói com perfeição.

Não seria incorreto afirmar que Match Point é um filme anti-Wood Allen: por mais que já tenha usado de narrativas de suspense em seus trabalhos (Tiros na Brodway sendo o mais notável, que eu me lembre) o diretor agora se despe de longos diálogos sobre relacionamentos para testemunhar as (in)conseqüências de uma paixão arrebatadora e proibida. Para conseguir isso, abusou da sua técnica limpa (a direção é tão leve que até parece fácil) e de um elenco perfeito.

Rhys-Myers é Chris, um tenista que nunca alcançou o topo e decide ensinar o esporte num clube de ricaços londrinos. Lá conhece Tom (Goode) e sua irmã (Mortimer, ótima), com quem se casa, sem nunca ficar muito claro a importância da situação financeira no meio. Formando o quadrilátero amoroso, Scarlett Johansson (deliciosa como sempre) é a noiva de Tom, uma candidata a atriz que atrai as atenções de Chris.

Match Point segue, a partir daí, um passo cômodo e sempre inesperado até culminar num final que somente poderia sair da mente do Allen engraçado e trágico que aprendemos a admirar.

Por Felipe Mappa

7 de março de 2006

Os Três Enterros de Melquiades Estrada, Stanley Kubrick e...


Sete anos já se passaram desde a morte de Stanley Kubrick, um dos maiores gênios do cinema, autor de verdadeiras obras primas como 2001 - Uma Odisséia no Espaço e Laranja Mecânica.

The Three Burials of Melquiades Estrada



USA, 2005. DE Tommy Lee Jones. COM Tommy Lee Jones, Barry Pepper, Julio Cedillo. 121 min. Europa Corp. DRAMA.


Tommy Lee Jones até que se sai bem dando uma de diretor no bom The Three Burials of Melquiades Estrada. Mas se sai melhor ainda como ator de seu próprio filme. Não foi a toa que recebeu o prêmio de melhor ator no festival de Cannes do ano passado.

Melquiades Estrada é um mexicano que entra nos Estados Unidos ilegalmente e começa a trabalhar como vaqueiro juntamente com Pete Perkins (Jones), um homem aparentemente duro, mas que possui fortes sentimentos guardados que se abrem com a chegada de Melquiades. Dali surge uma forte amizade entre os dois que nem mesmo a morte pode separar. O filme ainda conta com a competente presença de Barry Pepper no papel de um guarda de fronteira violento e nojentão.

O roteiro, também premiado em Cannes, de Guillermo Arriaga (21 Gramas e Amores Brutos) segue a mesma linha dos filmes que o deixaram famoso. A ordem cronológica dos fatos é embolada na primeira metade do filme para confundir um pouco a cabeça do espectador e aumentar o suspense da trama que contém personagens interessantes e construídos de forma exemplar, além de elementos “Peckinpanianos” como a violência e a tangencia do Western moderno visto em filmes como Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (74).

The Three Burials of Melquiades Estrada é o primeiro trabalho de Jones como diretor. Uma direção segura que exige momentos de agilidade devido ao roteiro e excelente utilização do cenário desértico do Texas e do México filmado com um realismo bizarro, porém com uma câmera que capta momentos e situações poéticas. Portanto, ponto para Tommy L. Jones!

Por Ronald Perrone

6 de março de 2006

Crash

E o Oscar vai para...

Crash – No Limite



Crash, USA, 2004. DE Paul Haggis. COM Karina Arroyave, Dato Bakhtadze, Sandra Bullock, Don Cheadle, Matt Dillon, Brendan Fraser, Terrence Howard, Ryan Phillippe. 113 min. Bull's Eye Entertainment. DRAMA.

Eu particularmente fiquei surpreso com a vitória de Crash, o filme do estreante diretor Paul Haggis, porém, já conhecido por ter escrito o roteiro de Menina de Ouro de Clint Eastwood, batendo na cara o favoritismo de O Segredo de Brokeback Mountain (que era o meu favorito), do diretor Ang Lee, que levou o prêmio de melhor diretor no Oscar 2006.

Em Crash – No Limite, o foco principal é o racismo. Não um determinado tipo de racismo, mas um racismo generalizado entre todas as raças e etnias. O roteiro, também escrito por Heggis, utiliza-se de uma estrutura não muito original, que é a utilização de vários personagens em situações diferentes ou não, e que acabam se entrelaçando nestas situações. Teve seu ápice na década de 90 com filmes como Short Cuts de Robert Altman e o seu melhor representante até hoje, Magnólia, de Paul Thomas Anderson. Em contrapartida, filmes que possuem essa estrutura narrativa podem ser criativos de acordo com a imaginação do roteirista mesmo que seja uma estrutura batida, como é o caso de Crash. O diretor consegue criar situações interessantes e ambienta-las em atmosferas realistas dando o clímax necessário para que os acontecimentos funcionem. Haggis tem ainda a sua disposição um ótimo elenco contando com Don Cheadle, Matt Dillon, Sandra Bullock, Brendan Fraser e muitos outros.

Entretanto, como a maioria dos filmes americanos, gera em determinados momentos de Crash um sentimentalismo forçado com a utilização de trilhas sonoras melancólicas forçando o espectador a cair em lágrimas, coisas de Hollywood. Porém, esse problema não tira o brilho do filme e aos poucos notamos o surgimento de novos diretores que deixam de lado estes artifícios Hollywoodianos; Graças ao belíssimo e bem trabalhado roteiro de Haggis, Crash é um filme que está acima da média de muitos dramas lançados nos Estados Unidos nos últimos anos.

Por Ronald Perrone



PS: Texto publicado anteriormente no antigo blog do Cine Art e republicado agora pela vitória de Melhor filme no Oscar 2006.