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20 de novembro de 2011

Tomboy + The Rural Alberta Advantage



Há, definitivamente, um quê andrógino na figura mirrada de Laure -- protagonista do vencedor do Teddy Award do Festival Internacional de Berlin (e do prêmio do júri de melhor longa do Festival Mix Brasil de Cinema da Diversidade Sexual, este, no último final de semana). A pequena acaba de mudar-se com seus pais e irmã mais nova para o bairro de um subúrbio francês, e ao ser confundida com um meninote por sua nova vizinha, Lisa, começa a fazer o jogo ao apresentar-se como Michaël, levando a mentira até onde o braço alcança e assumindo, de gruja,  consequências engraçadas e às vezes bem desconfortáveis.

Tomboy (que do inglês é algo como "Maria-João", menina com trejeitos masculinos) é o segundo da diretora francesa Céline Sciamma, e segue quase a mesma linha do seu primeiro, Water Lilies, trazendo a tona questões sobre a exploração da sexualidade feminina nesse contexto homosexual. Digo quase, justamente por Tomboy ser uma espécie de retrocesso, ao menos cronologicamente, entregando um personagem para quem a sexualidade é praticamente zero. E isso fica claro quando o corpo assexuado de Laure é exibido, deixando evidente que, na idade dela, a divisão entre sexos é uma linha tênue e quase inexistente. A fotografia de cores simples se junta ao tom documental, latente em toda a produção -- consigo até enxergar a referência a Luc e Jean-Pierre Dardenne -- fazendo a transição do mundo fechado e inóspito dos vestiários e piscinas de seu filme anterior para ambientes mais etéreos e bucólicos de bosques e lagos, tudo isso misturado a uma política de "menos é mais". Há uma sensação de intimidade e proximidade do elenco incríveis que corroboram a criação de uma verdadeira crônica viva e absurdamente natural,  suave e ao mesmo tempo sagaz em retratar as experiências da tenra idade.

Aliás, "natural" é um adjetivo que se repete ao longo de toda a projeção. Dentre outros aspectos fantásticos do filme, a interação do elenco, e principalmente, a direção dos pequeninos, todos desconhecidos e praticamente não-profissionais, é impecável! A naturalidade das cenas entre Laure e Jeanne (a lindíssississima Malonn Lévana, que dá vontade de apertar toda vez que ela surge na tela) é qualquer coisa de absurdamente linda.

O filme está longe de ser polêmico, entregando argumentos para influenciar ou mudar a atitude de outrem. Tomboy é mais um retrato emocionante do que significa ser pego fora das normas, sobre aventuras inocentes, sobre se apaixonar por algo impossível. Adorável.


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O trio é canadense. Nils Edenloff, Amy Cole e Paul Banwatt causaram certo burburinho no cenário alternativo com seu álbum de estréia, Hometowns. A voz bastante característica de Edenloff, a bateria frenética de Paul Banwatt e a doçura dos vocais de Amy Cole nos jogam algumas influências do tipo Neutral Milk Hotel, mas com características muito próprias, autênticas.


Este quase EP é o registro de um show realizado em março deste ano, onde a banda alterna entre a energia e intensidade de Hometowns e a pegada leve e bucólica de seu segundo disco, Departing. O som é digníssimo, com melodias que empolgam e emocionam na mesma proporção. E isso, meninos e meninas, é prova inegável de que a banda tem muito pra tornar-se grande; seja com um som mais energético, seja com baladinhas low-profile. =)

Serviço:

Live @ The Phoenix

01. Muscle Relaxants
02. Tomado '87
03. Edmonton
04. Frank, AB
05. In The Summertimes
06. Stramp
07. Bames' Yard
08. Drain The Blood
09. The Dethbridge in Lethbridge




18 de setembro de 2011

Waiting for Superman





















Waiting for Superman não é apenas um filme cativante, que envolve o público pela narrativa emocionante e surpreende em seus minutos finais... é, antes de tudo, um soco no estômago da falida estrutura educacional pública americana. Pensando aqui com os meus botões, Davis Guggenheim bem que poderia ter novamente usado o  An Inconvenient Truth para o título desse seu trabalho. Nesses novos 111 minutos, o diretor engrena uma narrativa perfeita e dá nome ao que antes eram só estatísticas: nos apresenta a Antônio, Francisco, Bianca, Daisy, e Emily -- cinco crianças que encontram-se presas ao sistema, numa busca incessante por uma saída. O problema central abordado pelo filme são os professores, com o argumento infalível de que são eles as peças chaves da equação. Se os caras não estão nem aí para a educação da molecada, a presença deles nas salas de aula se resume a preencher carteiras e morrerem de tédio. E essa falta de incentivo gera desinteresse, que consequentemente gera a evasão (o que justifica as escolas públicas americanas serem chamadas no filme de “fábricas de abandono” e “sumidouros acadêmico”). Entre vários motivos apontados, há ainda a temível estabilidade dos professores (o que dá o poder aos caras de fazer o que quiserem sem serem demitidos), e números (sobre a relação evasão escolar x criminalidade; sobre o quanto de dinheiro o governo americano gasta com sistema prisional em detrimento a educação; sobre a gritante diferença entre um bom professor e um professor ruim). Isso sem mencionar as soluções pífias do próprio sistema na tentativa de amenizar o impacto causado por uma educação de má qualidade e profissionais despreparados (a "Dança dos Limões", por exemplo, onde os diretores de escolas do mesmo distrito realizam uma troca de professores ruins, na esperança de que o ruim da escola vizinha seja menos pior do que aquele que acabara de mandar para outra; ou ainda a "Sala da Borracha", onde os professores suspenso por má conduta -- o que inclui de atrasos a abusos físicos e sexual -- lêem, dormem, jogam cartas e... recebem seu salário de forma integral enquanto aguardam os resultados das audiências -- que duram em média 3 anos, e custam aos cofres públicos do estado de Nova York U$ 100 milhões por ano). E fica impossível durante todo o filme não criar comparativos deste modelo americano com o também inibidor sistema educacional brasileiro (ainda que os motivos para as mazelas na educação nacional não sejam exatamente os mesmos do sistema americano). Tudo converge para a máxima que diz “as crianças são o nosso futuro”. Infelizmente não há uma solução automática e milagrosa para resolver o problema. E se essas crianças não estão recebendo a melhor educação possível, estamos todos indo para um buraco sem fim. É aí que entra a esperança da espera -- da espera de educadores fazendo o que supostamente deveriam fazer: ensinar, sem politicagem ou outros interesses.   Geoffrey Canada, CEO e Presidente da Harlem Children's Zone,  foi uma criança apunhalada pela cruel realidade ao descobrir que o Superman não era nada além dos gibis. Ele decidiu arregaçar as mangas para salvar os outros e a si mesmo. E nós, podemos fazer alguma coisa?

Waiting For Superman - Trailer from Ignition on Vimeo.

7 de setembro de 2011

Lung Boonmee Raleuk Chat (aka Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas)

- Bilu é o escambau!






















Então... Esse... Essa... Isso... Enfim, esse conjunto quase absurdo de imagens em movimento - que na verdade me parecem mais inertes - foi a grande zebra no Festival de Cannes do ano passado, vencendo a Palma de Ouro. Lung Boonmee... divide opiniões: entre os que acham tudo muito bonito, muito mágico e muito lúdico; e os céticos (oi?!) que acham tudo confuso demais, chato demais e pretensioso demais. Talvez (atentem ao negrito), Lung Boonmee... seja ambos. O roteirista e diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul (aka Joe – apelido adotado por ele próprio na intenção de facilitar a vida dos escribas) criou uma fantasia eligia, impregnada de Zen Budismo, sobre um agricultor tailandês as vias de sua morte. Há algo excentricamente cômico sobre esse “rito de passagem”: os encontros com a esposa morta e uma mórbida semelhança entre seu filho e o intrépido urrador de Star Wars, Chewbacca, que o digam. No entanto, algo que me incomoda muito mais é a frustrante falta de clareza narrativa. Aliás, muito pouco do filme é realmente compreensível, principalmente tudo após a morte do tio Boonmee. A narrativa é desprovida de qualquer estrutura convencional (o que prova que o tiro às vezes pode sair pela culatra), e o ritmo é absurdamente arrastado, chato. Se você estiver com disposição para algo poético, talvez ache tudo muito gratificante e significativo. O que não funcionou muito pra mim... É aquele tipo de filme que as pessoas assistem para parecer mais inteligente do que realmente são, fingindo gostar, por não quererem ser vistos como filisteus. Só não me culpe se você sair balançando a cabeça, descrente e se queixando de que o que acabou de ver não passa de um monte de bobagem místico-prolixo.

28 de janeiro de 2011

Black Swan


Black Swan (Cisne Negro, de Darren Aronofsky, 2010)

Pensando aqui com os meus botões... o balé não é tão diferente da luta livre, não é mesmo? Os dois são meticulosamente coreografados, exigem um enorme esforço físico e possuem o estranho poder de destruição – e talvez a única diferença seja que o primeiro possui artistas fisicamente menores e quase sempre uma música muito melhor. E é quase impossível não assistir ao novo filme do diretor Darren Aronofsky, Black Swan -- um thriller fantástico sobre os bastidores de uma companhia de ballet profissional em Nova York --, como um complemento para o seu último filme, The Wrestler – o ótimo melodrama sobre os bastidores das competições de luta livre --, tendo Natalie Portman atuando como uma versão pocket de Mickey Rourke (apenas na questão física, que fique claro).

Visualmente falando, Black Swan também possui muito de seu irmão mais velho: a hand-cam, a fotografia granulada em 16mm, o uso freqüente da câmera nas costas, sempre acompanhando os movimentos de seu protagonista, assim como o olhar voyeur, e as partes de um desempenho que quase nunca é mostrado: as dores insuportáveis, as lesões, o sofrimento -- figuras que são uma constante nos bastidores de produções desse tipo. Existem também semelhanças temáticas evidentes, como a obsessão do indivíduo pela realização de uma performance perfeita. Mas, no caso da Nina de Natalie Portman -- retirada das bases da companhia para ter a chance de dançar o papel principal de A Rainha dos Cisnes em O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky --, fica mais que evidente que é a sua mente seu principal inimigo, não o seu corpo.


Aronofsky cria um tipo de representação visual de medo do palco e de ansiedade do desempenho que toma corpo. E não bastasse tudo, Nina ainda tem de lidar com o estresse a bombardeando de todos os lados. E não falo só de sua mãe (Barbara Hershey, poderosa), absurdamente controladora, que desistiu de sua própria carreira como dançarina para erguer a da filha -- e faz questão de nunca deixá-la esquecer disso. O diretor artístico da companhia de balé, Thomas (o sempre ótimo Vincent Cassel), é também um ser bastante desprezível: um mulherengo francês que se diverte colocando a doce bailarina em situações desconfortáveis, tanto para desbloquear o lado sedutor dA Rainha dos Cisnes, o Cisne Negro do título, mas talvez, antes de tudo, para o seu próprio deleite. E aí, Lily (a linda e talentosa Mila Kunis), a bailarina baladeira, recém-chegada de São Francisco, aparece com a missão de servir de trampolim para Nina, já que a nova rival consegue expor as deficiências técnicas da protagonista por deter o tipo de sensualidade crua que a personagem de Portman teima em não deixar transparecer.

O filme é uma pequena obra-prima de crescente tensão; e é justamente dessa forma crescente e lenta (na medida certa, sem nunca se arrastar) que Aronofsky começa introduzindo seus vários dispositivos de indução ao horror: o rápido flash de um vulto em um espelho e que não deveria estar lá, o reflexo do rosto transfigurado da protagonista, cheio de olhares fugazes, a aparente deterioração física, como uma unha quebrada ou a misteriosa série de arranhões no ombro. E o diretor monta meticulosamente cada cena que envolve esses elementos, alçando tudo a um patamar maior, como um compositor que usa a sua música para dar o tom do clímax dramático. E já que falei de música, Aronofsky usa de forma sublime toda a carga dramática existente na obra original de Tchaikovsky para pontuar a própria estrutura do filme.


No papel principal, Portman nos presenteia de forma visceral com uma queda vertiginosa em direção ao insano. Há momentos em que torna-se difícil dizer onde realidade se mistura com ficção, tamanho o domínio do material que Portman detém. Tomando para ela mesma os conselhos do personagem de Cassel à Nina, a atriz entrega-se de corpo e alma a sua personagem: primeiro incorporando o tímido ‘lado branco’ com tanta proeza que a vontade que temos é a de sacudi-la na tentativa de persuadi-la a assumir algum controle ao invés de ser empurrada por todos os outros; para no final assumir de forma sublime o lado traiçoeiro e sensual do cisne negro. A atriz decidiu também por não usar substitutos em suas cenas de dança, fazendo ela mesma, e (para os olhares menos treinados) de maneira sempre competente.

Quando Nina não consegue mais enxergar volta na loucura completa, o filme torna-se um sinistro labirinto de espelhos (um ‘personagem’ sempre constante). Aronofksy sente prazer em misturar doses altas de horror psicológico à carga melodramática inerentes à historia, nos mantendo presos a todo o instante. A tensão, a música, o fio vivo da ansiedade do desempenho perfeito que conclui o filme, conversam de igual para igual com nossos medos e neuroses mais arraigados. E pode até parecer um pouco de exagero, mas se assim como Nina, você permitir-se entregar, o efeito é excitante -- uma das experiências mais psicologicamente acachapantes que eu já tive, colocando no chinelo qualquer outra que tenha tido o mesmo propósito.

Sem medo algum de errar, Black Swan é um dos melhores filmes do ano, e o meu favorito entre os indicados ao Academy Awards.

7 de junho de 2010

2046




(2046 - Os Segredos do Amor, de Wong Kar-way, 2004)

No final de In the Mood for Love, Chow sussurra um segredo que morre em um dos buracos da parede de um templo cambojano. Quando o vemos novamente em 2046, percebemos do que é capaz o poder transformador do amor -- da maneira mais negativa possível.

Nesse nosso reencontro, Chow parece ter sido atropelado por um caminhão: a recusa de um convite culmina no final de seu relacionamento com a bela Su, e o torna visivelmente inapto (num futuro próximo ou não) a permitir-se um affair mais sério novamente. E é aí que mora o paradoxo... Enquanto In The Mood for Love foi um mergulho de cabeça na história de um relacionamento único e ambivalente, 2046 nos entrega um Chow cafajeste, que se relaciona -- quase sempre da pior maneira -- com as mulheres. E são quatro belos exemplares: a 'dama de companhia' Bai Ling (a estonteante Zhang Ziyi, perfeita), a 'dançarina' Lulu (ou Mimi), a jogadora Su Lizhen (a que destrói o coração do nosso rapaz no início da fita) e a jovem Faye Wong, filha do dono do hotel (e que namora um menino japonês, aliás, namoro esse que entrega a Chow a única dica autruísta do filme). Agora mistura tudo e me diz se não temos aí o entrecho perfeito pra criar e defender teses e mais teses sobre este pequeno tesouro -- que ao exemplo dos outros filmes de kar-Way, não é facilmente digerido --, por horas a fio?

E já que eu cantei a pedra: acho que 2046 é menos uma sequência e muito mais uma releitura dos temas que envolvem In The Mood for Love. Muito semelhante ao modo em que o personagem de Tony Leung transforma suas experiências pessoais com as mulheres num futurista mas reconhecível homólogo ficcional para o livro que ele está escrevendo -- um jogo de repetição interminável.

2046 é um típico Wong Kar-way: visualmente acachapante (culpa da fotografia sublime do genial Christopher Doyle), com toda a irregularidade de continuidade e montagem que se tornam sua marca registrada, e a habilidade inigualável de acertar em cheio na trilha sonora (nos entregando entre outros, Vicenzo Bellini e Nat King Cole), complementando de forma precisa o que salta aos olhos do espectador. Ás vezes parece difícil conceber que em meio a todo esse aparente 'caos' audiovisual, o diretor chinês consiga se encontrar e fazer, inexplicavelmente, tudo funcionar. Ou quase tudo... O filme por vezes parece se alongar demais. O que tornou o meu desejo por um desenrolar mais dinâmico urgente, afinal de contas, tenho o direito de querer guardar um pouco do meu estado de humor romântico-melancólico pra próxima produção do diretor, não é mesmo? E Kar-way não gostaria de acabar com todo o meu estoque já escasso, de jeito nenhum.

Noves fora, ao menos tenho certeza de que, embora eu tenha dificuldade em dizer por onde 2046 me fisgou exatamente, fica claro que foi uma das viagens mais fascinantes que tive o prazer em fazer. Um estonteante e 'desorganizado' ensaio sobre amores perdidos, saudade, dor e lágrimas -- e que não poderia ser mais exepcionalmente belo.

22 de junho de 2006

Cars e Cartas de Uma Desconhecida

Apresento a vocês a nova aquisição do cineart: Victor Marculano, aka Monsenhor. Em sua primeira empreitada (primeira mesmo), ele fala sobre a nova animação da Pixar. Bem-vindo ao clube, Monsenhor!

ronald perrone, editor cine art

Carros

e ½

Cars, EUA, 2006. DE John Lasseter. COM AS VOZES DE Owen Wilson, Paul Newman, Tony Shalhoub. 116 min. Disney. ANIMAÇÃO/COMÉDIA.

A pedidos do meu grande amigo Ronald, venho me envergonhar publicamente com uma crítica de minha autoria sobre a animação da Disney com seu mais recente adquirido estúdio de animação, a Pixar. Como não poderia deixar de ser, assim como todos os filmes de animação da Disney, seja animado em Computação Gráfica ou no famoso "desenho", essa animação, Cars, tem como público alvo, as crianças. É um filme para toda a família, e com a velha tradição Disney de passar aquele "sermão", trazendo sempre uma lição de moral. E a lição do filme não poderia ser mais "batida". O valor da verdadeira amizade e o amor por aqueles que te respeitam. E tendo um tema clichê, como esse, o roteiro também não poderia ser brilhante. Muito pelo contrário. Com o excelente trabalho que a Pixar fez em Os Incríveis, era até se esperar que Cars seria outra pérola. A meu ver, é só mais uma perolazinha no meio de tantas outra formando um extenso colar. E exatamente como uma pérola, a animação é visualmente belíssima. A mais bela que já vi até hoje. Superando animações como Final Fantasy Advent Children, da Square Enix e dirigido por Tetsuya Nomura. Cars conta com uma animação extremamente detalhada. Chega a ser absurdo detalhes como aqueles pequenos riscos circulares na lataria do carro (das tradicionais esfregadas ao lavar o carro), ou também minúsculas pedrinhas na estrada. O mais belo cenário do filme é o deserto onde se localiza a estrada Route 66, onde se passa a história do filme. O nível de detalhamento do deserto é extremo ao ponto de esquecemos que se trata de uma animação com carros falantes, e acharmos que tudo aquilo é real. Deveras, com um orçamento milionário de pouco mais de 70 milhões de dólares, e alguns anos em desenvolvimento, o filme tinha a obrigação de ser bonito. Mas penou grandiosamente em trazer uma história fraca, chata em certos momentos, e até mesmo sem graça. Achei muito estranho o fato do filme ter me arrancado somente duas risadas durante sua extensão. Tendo em vista que os lançamentos anteriores da Pixar possuem cenas hilárias a todo momento. Não só um humor mais apurado fez falta no filme. Assim como emoção. Adrenalina. Aquela ansiedade de que o herói chegue ao final do filme e dê tudo certo. É quase inexistente no filme. A não ser por algumas cenas nas pistas ovais da Nascar. As dublagens ficaram boas. Algumas até engraçadas, como a da caminhonete amiga do herói do filme. Mas também não foi nada de excepcional. Pois bem. É o tradicional filme da Disney, feito para toda a família, sem ofender inteligencia de nenhum espectador. Mas também sem surpreender nenhum deles. Não é imperdível. Mas se tiver a chance assista. O belo visual do filme compensa algumas falhas.
Por Monsenhor


Cartas de Uma Desconhecida



Letter From An Unknown Woman, EUA, 1948. DE Max Ophüls. COM Joan Fontaine, Louis Jourdan. 86 min. Versátil. DRAMA.

"Cada um de nós é vencido apenas pelo destino que não soube dominar." A frase, de Stefan Zweig, é uma síntese perfeita para o sentido desta fita extraída de um pequeno livro do famoso escritor austríaco que se suicidou no Brasil em 42, aos 61 anos. Nos permite compreender melhor os encontros e desencontros dessa história de amor com final surpreendente, mas extremamente coerente com a frase. Essa segunda realização americana do alemão Max Ophüls começa em uma noite de 1900, na Viena imperial, quando o festejado pianista Stefan (Jourdan), ao chegar melancólico em sua casa, recebe uma carta. Nela, uma mulher chamada Lisa (Fontaine) relata as aventuras e desventuras de sua vida desde que o conheceu, ainda adolescente e casta, até os dias atuais - então já uma senhora casada com um nobre. Um longo flashback que expõe com notável grandeza dramática a fragilidade humana, seja ela coberta de arrogância e leviandade, seja de candura e ingenuidade. Tudo sob a direção ao mesmo tempo elegante, cálida e perspicaz de Ophüls, mestre na movimentação da câmera. Ele sempre impressionava com o seu refinado formalismo. Nas três fases narrativas, Fontaine consegue ser uma Lisa embravecida, sensual e maternal. Um desempenho crível, um ótimo contraponto para a presença sedutora e imprudente imposta pelo francês Louis Jourdan. A bela fotografia em preto-e-branco de Franz Planer e a música de Daniele Amfitheatrof são elementos decisivos para o clima fatalista e passional dessa obra-prima de Max Ophüls. Um dos melhores melodramas de todos os tempos.
Por Felipe

19 de junho de 2006

Zombie & A Batalha de Argel

Zombie



Zombi 2, ITA, 1979. DE Lucio Fulci. COM Tisa Farrow, Ian McCulloch, Richard Johnson, Al Cliver, Auretta Gay. 91 min. Variety. HORROR.

Zombie recebeu o nome na Itália de Zombie 2 por causa do lançamento do filme Down Of the Dead, de George A. Romero, que na Itália foi chamado de Zombies, no mesmo período que o filme de Lucio Fulci foi lançado. Mas se trata de um filme completamente diferente e independente, ou seja, não possui qualquer relação com o filme de Romero. Além disso, a atmosfera, o estilo próprio de Fulci é a prova de sua criatividade, já que, filmes de Zumbis é um subgênero tão copiado e mesmo assim, Fulci revigora com sua visão própria e inovadora. O filme já foi lançado com vários outros titulos, porém o mais conhecido é simplesmente Zombies.

A história começa em pleno mar, num barco que vai à deriva, aparentemente abandonado, em direção a Nova York. O dono do barco é um cientista que está desaparecido há vários meses desde que foi para as ilhas do Caribe. Sua filha então, se junta com um repórter e parte para descobrir seu paradeiro. No meio do caminho, eles conhecem um casal de turistas que estão de férias com seu pequeno barco. Com isso, os quatro partem com o objetivo de achar o doutor em uma pequena ilha desconhecida. É nessa ilha que acontece o banho de sangue tão esperado pelos espectadores. Porém Fulci consegue deixar tudo mais interessante, desenvolvendo histórias paralelas com personagens bem modelados e um roteiro bem estruturado. Com isso, até mesmo as cenas dramáticas permanecem com o mesmo nível das cenas que todos os espectadores esperam: a violência gratuita. Zumbiz arrancando membros e comendo as vísceras de pessoas abertas e ensangüentadas e pessoas matando zumbis com tiros, facadas e pauladas na cabeça (todos sabem que só assim eles morrem, dããã). Uma belezura. E tudo filmado com a maestria impressionante de Lucio Fulci, ótimos efeitos visuais e maquiagens convincentes. Uma verdadeira obra prima do Horror italiano.
Por Ronald


A Batalha de Argel

e ½

La Battaglia di Algeri, Italia/Argélia, 1965. DE Gillo Pontecorvo. COM Brahim Haggiag, Jean Martin. 117 min. Lumiére. DRAMA.

Entre os anos de 1954 e 1962, os argelinos lutaram contra os invasores franceses da única maneira que conheciam: a guerrilha urbana. Numa primeira fase, a França respondeu com o envio de tropas, prisões e tortura. Por um breve período, a tática funcionou: os líderes rebeldes foram ou presos, ou eliminados. Anos depois, no entanto, o movimento ressurgiu como que por encanto, obrigando o governo francês a declarar independente a Argélia. Esse episódio da história é contado com riqueza de detalhes em A Batalha de Argel, do italiano Gillo Pontecorvo. O filme impressiona porque praticamente tudo é encenado, embora a maior parte do elenco, com exceção de Jean Martin, tenha sido composta não por não-atores. E também porque o filme, que serviu como instrumento pedagógico tanto para os cubanos, vietcongues e até pra o IRA e os Panteras Negras, hoje é projetado nas salas de exibição do Pentágono. De certo para ensinar a militares americanos o caminho das pedras que ainda não conseguiram encontrar.
Por Felipe

12 de junho de 2006

A Criança

A Criança

e ½

L'Enfant, BEL/FRA, 2005. DE Jean Pierre e Luc Dardenne. COM Jérémie Renier, Déborah François. 95 min. Les Films du Fleuve. DRAMA.

Dos grandes lançamentos do ano, A criança se coloca entre um dos melhores filmes do ano (como podem ver na lista do post anterior). Mérito de um excelente trabalho realizado pelos irmãos Dardennes em retratar a história de um jovem casal marginalizado que passa por um processo de transformação com o nascimento do primeiro filho. Porém, a criança do título refere-se ao pai, que possui um comportamento lúdico diante das situações que enfrenta. Ele acaba sendo o foco central do filme e é o personagem que sofre as principais mudanças.


Quem acompanha os primeiros trabalhos dos diretores percebe em A Criança a regularidade de seus filmes em sempre filmar personagens marginalizados socialmente com uma estética individual, a câmera à mão em constantes planos seqüências e enquadramentos fechados explorando a intimidade e realçando os sentimentos dos personagens, principalmente nos filmes Rosetta (1999) e O Filho (2002).

Mas em A Criança, há uma diferença marcante dos filmes anteriores. A sutileza e a frieza sede espaço para a clareza das reviravoltas. Dá-se a impressão de um filme mais elaborado, acentuando o drama de seus personagens e os pontos de virada do roteiro. Acho que é uma espécie de evolução daquilo que já era quase perfeito, já que todos os filmes dos irmãos são de uma qualidade impressionante e A Criança, além de confirmar, se estabelece como o melhor filme dos irmãos Dardennes.
Por Ronald

25 de maio de 2006

Retratos de Família e Zona de Risco

Retratos de Família



Junebug, USA, 2005. DE Phil Morrison. COM Embeth Davidtz, Alessandro Nivola, Amy Adams, David Kuhn. 106 min. Bitelli. DRAMA

Um dos filmes mais interessantes dessa nova safra que chegou ao Brasil foi esse Retratos de Família. Interessante pra não dizer algo pior porque o filme não tem assim nada de especial que poderia deixar marcado. Acho que nem entraria numa lista dos melhores do ano (na minha não entra). Mas é um drama familiar muito acima da média produzida por cabeças americanas. O bom roteiro escrito e dirigido com bastante simplicidade pelo americano Phil Morrison, em seu longa de estréia, trata de um tema que parece nunca se cansar dentro do painel cinematográfico, a família. E no caso de Retratos de Família, os problemas familiares são mostrados com bastante frieza e a origem dos problemas nunca é esclarecida. Simplesmente caímos no meio de uma família de estranhos personagens e acompanhamos alguns momentos de suas vidas, e percebemos que não há qualquer esperança de mudança ou perdão.
O filho mais velho, George (Nivola), depois de muitos anos longe de casa, resolve visitar sua família e apresentar sua esposa, Madeleine (Davidtz). Mas o grande prazer de assistir o filme está na personagem de Amy Adams. Enquanto todos possuem suas fortes manias e guardam mágoas do passado, ela é a única pura e dá um show de atuação. Não foi a toa que recebeu uma indicação ao Oscar. Com uma narrativa fora do padrão americano, lenta e sem qualquer atrativo aparente, a força do filme está nos seus personagens e na frieza de seu diretor em não criar soluções e nem mesmo expor completamente os problemas. Como se a vida fosse e será a mesma merda de sempre.
Por Ronald


Zona de Risco

e 1/2

Gongdong Gyeongbi Guyeok J.S.A., Coréia do Sul, 2000. DE Park Chan-Wook. COM Song Kang-ho, Shin Ha-Kyun, Kim Tae-Ho. 107 min. Europa. DRAMA

A força da amizade é o centro do emocionante Zona de Risco, quarto longa do cultuado Park Chan-Wook. É isso mesmo que você leu: o mesmo cara que (posteriormente) realizou uma impactante e brutal trilogia sobre a vingança - cujo capítulo central é o excepcional Oldboy - também sabe manipular com habilidade notável os sentimentos nobres. Não é à toa que virou sensação e habitué em festivais internacionais. Mas infelizmente, nem tudo são flores em Zona de Risco. Pra começar, toda a ação acontece na área militarizada que divide a Coréia do Sul e do Norte. Políticos dos dois lados estão envolvidos em tensas negociações, e o clima na fronteira - pra lá de pesado -, piora quando dois militares são assassinados na parte norte. Um soldado do Sul assume a culpa e assina sem pestanejar sua confissão, afirmando ter sido surpreendido pelos inimigos e levado à força para o outro lado. Porém a coisa não é tão simples assim. Existe uma trama paralela despida de ódio e rivalidade em doses homeopáticas ao expectador - e da qual, aliás, me recuso a falar muito. A narrativa estruturada em idas e vindas no tempo e maneira como se desenrolam as investigações me faz lembrar do absorvente A História de Um Soldado, de Norman Jewison. Mas existe entre os dois uma diferença fundamental: enquanto o drama de Jewison traz à tona racismo e intolerância em vários níveis, o de Cha-Wook esconde uma tocante história de fraternidade e também uma contundente mensagem antibelicista.
Por Felipe

23 de maio de 2006

Template Novo e A Dama de Honra

Nada como mudar. E, nós, mas uma vez, seguindo a lei da irregularidade, mudamos o nosso template. O logo ainda não é o definitivo - teremos de escolher em uma pequena lista de logos bacanas qual deles ocupará o cargo oficial, para dar de vez uma nova cara ao blogue. Mas como eu já havia terminado o trabalho, e estava ansioso pra ver a pocilga de roupa nova, eis! Espero que gostem, e nos ajudem! (;

felipe, editor cineart



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A Dama de Honra



La Demoiselle d'honneur, FRA/ALE/ITA , 2004. DE Claude Chabrol. COM Benoît Magimel, Laura Smet, Aurore Clément. 111 min. Alicéléo. DRAMA

A dama de Honra é o segundo filme do Chabrol que eu assisto e é também seu filme mais novo, para os desinformados. O filme é um estudo do comportamento humano diante de relações e situações inusitadas. Cada personagem age de forma diferente às mesmas situações, mas o foco principal é no personagem Phillippe (Benoit Magimel). Além disso, Chabrol faz uma brincadeira de gêneros, o que parece ser uma constante em sua filmografia. É criada toda uma atmosfera de suspense, mistério, crime com o objetivo de envolver o publico ao mesmo tempo em que lança elementos e impressões de uma crônica sobre o amor. Chabrol é um desses idosos diretores da velha guarda que ainda estão em atividade como Alain Resnais, Eric Rohmer, Manoel de Oliveira e Jean Luc Godard. Porém, diferente desse ultimo (não desmerecendo a atual fase de Godard, o poblema é que é muito inferior aos seus filmes dos anos 60), os filmes de Chabrol parecem ainda possuir um certo vigor cinematográfico e A Dama de Honra é a prova disso. Um dos melhores lançados este ano.
Por Ronald