22 de janeiro de 2011

Scott Pilgrim vs The World


(Scott Pilgrim Contra o Mundo, de Edgar Wright, 2010)

Logo que Zack Snyder alardeou que seria ele o responsável pela adaptação de Watchmen, de Alan Moore, muita gente mordeu a beiça achando que não seria bacana, alegando (como em alguns outros episódios muito bem-sucedidos) que o material de origem era infilmável. O mesmo deve ter rolado quando foi anunciada a adaptação dos quadrinhos assinados por Bryan Lee O'Malley's -- uma série em seis volumes cheia de personagens excêntricos e recheado de referências da cultura pop-nerd.

Personagens, aliás, que poderiam compor aquele famoso poema de Drummond: Knives ama Scott, que ama Knives, que ama Scott, e que passou a amar Ramona... Que amou Matthew, Lucas, Todd, Roxy (porque "todo mundo tem uma fase lésbica em algum momento da vida"), Kyle e Ken e Gideon. Matthew virou macumbeiro do mal, Lucas é astro de cinema, Roxy ainda é lésbica, Kyle e Ken são super DJ’s e Gideon o líder dA Liga dos Ex-Namorados do Mal de Ramona Flowers. E todos os sete querem trucidar Scott por ele ser o novo queridinho de Ramona.

Bebendo goles generosos da mesma fonte de Spaced – série do mesmo (e genial) diretor inglês Edgar Wright, o mundo fabricado de Scott Pilgrim vs The World cai no limbo, em algum lugar entre a realidade, o fantástico e o incomum, onde coisas absurdas rolam sem explicação ou surpresa de alguns dos personagens. E é isso que dá o tom necessário à história, assim como a incansável jornada de Scott é essencialmente uma tradução literal da velha máxima, "love is battlefield" (tudo bem, é só uma música da Pat Benatar, o que não a torna menos verdadeira).


Falando em campo de batalha, as fantásticas cenas de lutas são coreografadas como em video-games, com cada ex-namorado do mal servindo como o último chefão, e explodindo em uma chuva de moedas quando derrotado. Wright também faz forte uso de efeitos de som e efeitos visuais no melhor estilo Nintendinho 8-bits, enquanto as onomatopéias são animadas em letras, igualzinho aos comic books.

O texto é tão mastigadinho e divertido quanto nos originais de O'Malley's -- e o crédito é total de Wright e o co-roteirista Michael Bacall, que condensaram todos os seis volumes em um filme apenas, com maestria. Tudo bem que uma coisa ou outra acabou ficando de fora, mas nada que chegue a provocar insatisfação por parte dos fãs. Wright mantém o roteiro enxuto, num ritmo alucinante, combinando uma edição frenética e telas divididas. O elenco também é ótimo, e apesar de todos manterem a regularidade (os ex-namorados do mal fazem um trabalho particularmente bacana com o tempo limitado que alguns possuem em cena), eu destacaria o quase esquecido (quase tanto quanto o braço mais famoso da família) irmão Culkin, Kieran; a lindinha e borbulhante novata, Ellen Wong, e um Michael Cera com mais cara e atitude de Scott Pilgrim do que eu  jamais poderia imaginar.

Scott Pilgrim vs The World não é só uma declaração de amor aos quadrinhos, ou aos geeks de todo o mundo -- é uma ode ao nerdly way! É um paralelo do mundo real, onde nada é conseqüência e tudo é conseqüência.

♪ Post fechado ao som de Dionne Bromfield, Foolish Little Girl.

19 de janeiro de 2011

O novo Aranha...

Taí. E eu que não conseguia enxergar mais ninguém além de Tobey Maguire na pele de Peter Parker/Aranha... pagando a minha língua. Gostei muito do uniforme. E de Andrew Garfield dando corpo ao personagem.


Tá com cara de que vai prestar! ;D

O MovieWeb colocou no ar hoje dois vídeos curtinhos do cabeça-de-teia em uma provável cena, além de fotos do set. Bacanão dar uma conferida!

21 de agosto de 2010

Don't Look Up.


Quando ouço juntas as palavras "ficção científica" e "baixo orçamento" eu já fico serelepe! Este pôster e este trailer só fizeram aumentar a expectativa. A essa altura deve tá todo mundo sabendo que se trata da nova colaboração da dupla Colin e Greg Strause, que entre coisas não tão bacanas, foram responsáveis pelos efeitos visuais de Benjamin Button e Avatar. Já tem gente dizendo que se trata de o novo Independence Day... Eu prefiro acreditar que esteja mais pra District 9.

Agora diz aí, legal demais essa coisa de abdução em massa, não?

15 de agosto de 2010

Notas breves: Inception e The Expendables


(A Origem, de Christopher Nolan, 2010)

Inception me deu uma estranha sensação de déjà vu. Não que existam muitas semelhanças entre o filme de Scorsese e Nolan... quer dizer, há o tema ilusão x realidade, de certa forma há o drama conjugal/familiar, e também há Leonardo DiCaprio como protagonista. Mas assim como Shutter IslandInception pensa ser mais esperto que o expectador... No final você acaba percebendo que perdeu quase duas horas e meia da sua vida com toda aquela bobagem. Não que eu não entenda ou não aprecie a insana viagem de Nolan ao maravilhoso mundo dos sonhos.  Mas por que diabos um filme concebido para abalar minha estrutura psicológica me faz sentir, na melhor das hipóteses, indiferente?

 Tudo bem, algumas cenas impressionam, como a já clássica ‘dobra’ da cidade arquitetada pelo personagem de Ellen Page, e a incrível cena de luta em gravidade zero. E há certo prazer, pelo menos na primeira hora de projeção, onde tentamos acompanhar o joguete entre ilusão e realidade e da miríade de regras para manipulação dos sonhos. Mas depois da primeira hora e meia tudo parece muito barulho por nada.

Inception é tão ousado, mas tão ousado que perde um tempo precioso explicando o quão corajoso e ousado ele é (com sua ingenuidade estrutural quase tão impressionante quanto a qualidade técnica). Infelizmente em termos humanos é quase nulo, e muito diferente dos sonhos mais bacanudos, esse não fica na lembrança.

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(Os Mercenários, Sylvester Stallone, 2010)

Nem sei o que dizer... The Expendables é tudo o que eu esperava e mais! É sem dúvida a grande sacada de Sly Stallone, e uma ode ao cinema de ação dos anos 80: mudo, barulhento e explosivo! É trinitrotolueno purinho, minha gente!

A fita é um mash-up com as grandes estrelas dos filmes de ação (levaria menos tempo pra dizer quem não está no elenco do que o contrário)! E o enredo não poderia ser mais old-school: alguns bandidos canastrões e os caras legais que estão atrás desses bandidos em algum lugar do terceiro mundo.  Perseguições insanas, explosões literais, armas de fogo (de todos os estilos e calibres), facas bem grandes, aviões, caminhões, Harley Davidson’s e sangue -- muito sangue. É Tarantino, só que sem a costumeira ironia.

As explosões, o caos e os crânios esmagados preenchem com maestria as lacunas do roteiro. Sly, que escreve e dirige essa divertida e empolgante confusão muscular, sabe muito bem como filmar cada sequência de forma visceral, sem dar muita atenção a continuidade ou ao desenvolvimento de seus personagens (o único com um background raso aqui é o personagem vivido pelo inglês Jason Statham).

The Expendables é a retomada de fôlego do cinema de ação; é uma mistura maravilhosa de entretenimento visceral que nos oferece o top do cinema truculento! Um filme feito para se lembrar dos dias de glória dos blockbusters de ação. É Sly Stallone arrebentando as pregas, descobrindo um novo jeito de ensurdecer uma nova geração tão desacostumada a essa overdose de testosterona nas telas de cinema! ;D

7 de agosto de 2010

Kick-Ass


(Kick-Ass - Quebrando Tudo, de Matthew Vaughn, 2010)

Adaptações para o cinema, até para os menos puristas, soa sempre como um problema. E enquanto um número cada vez maior de HQ’s alcançam as grandes salas de projeção, continuamos a observar algumas decepções indiscutíveis durante a última década. Se a gente resolve falar do encontro entre essas duas mídias altamente visuais, caímos por sobre a liberdade dos autores em cada uma: o cara da prancheta certamente possui mais liberdade que o cara atrás das câmeras. E não somente do ponto de vista criativo. O que explica direitinho o motivo das histórias em quadrinho terem perdido a sua essência, a sua densidade, para se tornarem produções bonitinhas, arrumadas e quase sempre acéfalas...

Kick-Ass é tudo o que as normas de ética e moral do cinema mainstream querem longe das telas: violência extrema e boa dose de cinismo. Para o nosso deleite e surpresa, com um texto excepcional de Matthew Vaughn e Jane Goldman (que se certificaram em fazer tudo dentro dos conformes, a fim de deixar a fita apresentável para um público amplo), temos o que seguramente posso chamar de uma das melhores adaptações de HQ para telona, além de um dos melhores filmes do ano. E há algumas diferenças entre as duas versões da saga de Dave Lizewske, o rapaz que resolve lutar contra o crime em uma roupa de mergulho . Assim como o (anti) herói de Watchmen, o rapazola percorre toda a cidade para manter a ordem e a justiça, mesmo que não tenha a menor habilidade e talento para isso. Vaughn e Goldman se permitiram alguns ajustes em todos os personagens, reduzindo de alguma forma a carga emotiva presente no original, mas sem comprometê-los -- como no caso da dulpa explosiva do filme, Big Daddy (Cage, hilário) e a pequena Hit Girl (Chlöe Moretz Grace, genial em um dos melhores personagem de todos os tempos), em quem os roteiristas confiam a missão de vingança contra a facção criminosa liderada por Frank D’amico (Strong, impagável). Outro grande lance do roteiro foi o de mostrar a via crucis dos gângsteres em pôr as mãos no suposto justiceiro mascarado, coisa que Millar não fez no original – e que permitiu ao diretor clarear um tom, jogando com a ironia dramática sem nunca trair o espírito underground e sádico do texto original.

Ainda que levante uma pergunta no mínimo curiosa em relação ao motivo de nunca ninguém ter se aventurado no mundo dos super-heróis (questão essa que é respondida logo na primeira aparição de Kick-Ass contra o crime), Vaughn não comete o erro de uma imersão ultra-realista. Se o universo de Kick-Ass se mostra por vezes cru e vulgar, o cineasta britânico se esforça para permitir que os seus protagonistas vivam suas fantasias, orquestrando cenas de ação absolutamente deslumbrantes onde o excesso é obrigatório, e a violência revela-se por vezes menos radical, apesar de incitada quase sempre por uma menina de 11 anos. Mas a essência da fita talvez seja muito mais pertinente, pois lida com o nascimento de um fenômeno popular na era das mídias sociais, ao mesmo tempo em que adota um número de elementos consideráveis presentes no imaginário coletivo mundial. E fica muito fácil constatar isso tudo quando vemos a cena de tiroteio frenético em primeira pessoa, com diálogos que nos remetem a Scarface e a cena final de O Retorno de Jedi; e claro, a homenagem clara à Kill Bill em uma sequência final brilhante, onde o diretor se permite invocar Tarantino adotando uma das trilhas de Ennio Morricone. Aliás, a trilha sonora é outro ponto fortíssimo, e nos oferece um cardápio variado que vai de Prodigy à Mozart. É também na trilha que Kick-Ass mostra todo o seu discernimento, sempre usando suas referências com uma intenção muito definida (como evocar Rossini num contexto absolutamente diferente do usado por Kubrick em Laranja Mecânica).

Sem dúvida alguma Kick-Ass será recebido por muitos como uma produção amoral, condenável e irresponsável -- com todos os méritos. Mas ao invés de enterrar nossas cabeças na areia, Vaughn e Goldman decidem assumir a responsabilidade por suas idéias, trazendo confiança aos espectadores, que se privam de analisar conceitos morais de bem e mal, e percebem o quão absurdo e inacreditável pode ser o entretenimento, sem que nos insulte a inteligência. No nível estético, a equipe do diretor britânico dá show: quer seja pela originalidade e fluidez das sequências de ação (fruto da ótima montagem) ou pela fotografia colorida de Ben Davis.

O resultado não poderia ser diferente: o melhor filme de super-heróis desde The Dark Knight, Kick-Ass faz jus ao nome, em todos os sentidos.

3 de agosto de 2010

#ScottPilgrimNoBrasilNOW



Obrigado, Paramount, por jogar essa belezura pra outubro. Muito, muito, muito obrigado.

O Thiago Siqueira, do Cinema com Rapadura, lançou a campanha do título deste post no último RapaduraCast. Eu fiz a minha parte.

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Mais sobre Scott... quem?

31 de julho de 2010

The Last Airbender


(0 Último Mestre do Ar, de M. Night Shyamalan, 2010)

Desde que foi anunciada a versão em celulóide de Avatar, popular série animada produzida pela Nickelodeon, a controvérsia e o ceticismo tem pairado sobre a produção. Assistindo à nova brincadeira do diretor indiano, posso garantir a quem se preocupa com o racismo já alardeado do filme (o que incitou fãs puristas na gringa a promover um boicote), que ele é  praticamente nulo quando comparado a inegável arte de Manoj Nelliattu Shyamalan em destruir -- de forma (sempre) competente -- expectativas e materiais que definitivamente poderiam colocá-lo novamente em um posto de honra. Com um roteiro "incrível", The Last Airbender é um grave insulto a qualquer ser com um QI de três dígitos e disposto a usá-los durante a projeção. Diferente do original criado por Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko, o filme de Shyamalan é ruim. E arrisco a dizer (com um pouco de pesar, até porque ainda acredito na capacidade de Shyamalan em voltar a velha forma) que O Último Mestre do Ar vem pra arrebentar as pregas e assinar, de uma vez por todas, a já anunciada sentença de morte de sua carreira... o que torna mais difícil de acreditar que a Paramount confiaria a continuação da série (ou trilogia) ao diretor.

Se você por acaso não conhece, The Last Airbender conta a história de um mundo coabitado por quatro tribos, representadas pelos quatro elementos (ar, água, terra e fogo). Em cada tribo, existem o que chamamos de "dobradores" (ou Mestres... da Água, Terra, Fogo e Ar) - indivíduos que manipulam o seu respectivo elemento. E em algum lugar perdido no mundo, o Avatar, que domina a todos os quatro elementos, e de quem não se tem notícias a mais de 100 anos. E é justamente nele, o último Mestre da Tribo do Ar, em que se deposita toda a esperança de libertação da opressão imposta pela Tribo do Fogo, que tem em seu controle grande parte desse mundo.

O filme retrocede. Nos remete a um tempo antes de O Senhor dos Anéis e Harry Potter, quando o cinema de fantasia não passava do filho bastardo da ficção científica, sempre motivo de piada. É uma compilação de clichês ruins e costurados de forma deselegante pelo roteiro amargo de Shyamalan. Como se já não bastasse tudo, o diretor-roteirista se afunda muito mais ao comprimir uma tonelada de informação em uma linha de díálogo (o que contribuiu prum filme bastante corrido e confuso), jogando nas costas dos jovens atores uma carga pesada demais e que obviamente eles não conseguem suportar. Irônicamente ou não, os menos piores em cena fazem parte da banda étnica da produção: Patel, Curtis e Assif Mandvi. Ainda assim, em alguns pontos me lembrei do conselho que Herrison Ford deu a Lucas no set de Star Wars, onde ele basicamente dizia que o diretor poderia escrever qualquer merda que quisesse, e ainda assim, a grande maioria das coisas escritas não poderiam ser ditas, interpretadas de forma satisfatória.

Mas nem tudo são cinzas -- se me permitem a piada infame. A produção de design acerta muito: Phillip Messina fez o meu queixo cair em várias passagens, com beleza e capricho, enciclopédico com as referências culturais de cada tribo, o que inevitavelmente cria uma identidade real; a fotografia de Abdrew Lesnie é absurda;  Judianna Makovsky também fez a lição de casa direitinho para o figurino, perfeitos; e como não poderia deixar de ser, os efeitos visuais (cortesia da turma do Tio Lucas, a Industrial Light and Magic) corroboram para todo o deleite visual da produção, principalmente em relação a dobra dos elementos (da água, sobretudo).

Alguns fodões do mainstream cinematográfico diziam que a redenção de M. Night Shyamalan poderia vir de um material adaptado. The Last Airbender joga por terra essa teoria, o que supera qualquer coisa que ele já tenha produzido em termos de horror incompreendido. Há momentos em que me pergunto seriamente se ele está tentando seguir os passos de Ed Wood... Fato é que erros primários comprometem toda uma produção, e pior, insultam a nossa inteligência. Neste caso específico, aos fãs da série original, que terão de pagar para assistir a um resultado vergonhoso (ainda que a equipe de arte tenha acertado muito).

Que me perdoe Shakespeare, mas se merda tivesse outro nome, continuaria a feder do mesmo jeito.

14 de junho de 2010

I Love You Phillip Morris!


(O Golpista do Ano, de John Requa e Glenn Ficarra, 2010)

O filme começa com uma declaração: as palavras "Isto realmente aconteceu" saltam à tela. E então, só pra ter certeza de que você tem a certeza de que está prestes a assistir uma das mais improváveis cinebiografias dos últimos tempos, Requa e Ficarra, que juntos escreveram e dirigiram o filme, acrescentam: "De verdade". Baseado no livro homônimo do então repórter americano do Houston Chronicle, Steve McVicker, I Love You Phillip Morris! esmiuça a trajetória de uma lenda prisional americana. A versão em celulóide é um pouco mais ácida e crua. O resultado é um romance (e não uma sátira ou um conto pervertido) estranhamente interessante -- um dos mais românticos e mais inspiradores dos últimos anos.

Nos primeiros dez minutos a fita possui um desenrolar quase frenético: após o jovem Steven descobrir que é adotado (numa cena impagável), ele decide ser o melhor em tudo o que fizer. Cresce, torna-se polcial na Geórgia, casa-se com Debbie (a ótima Leslie Mann), com quem tem dois filhos, além de outras características bem aceitas pela nossa sociedade cristã-heterosexual. Fazendo uso de suas regalias, ele se infiltra nos computadores da polícia pra descobrir o paradeiro de sua mãe biológica, e ao ser rejeitado por ela entra em parafuso. Se envolvendo em um acidente, Steven sai dali jurando nunca mais viver uma mentira. É exatamente neste ponto que os roteiristas tratam de descontruir o personagem de Carrey: Steven é gay ("gay, gay, gay, gay, gay", como ele mesmo faz questão de endossar), e a partir de todas essas desilusões resolve sair do armário e abraçar o gay-wayoflife. Na tentativa de manter o luxuoso estilo de vida (porque "ser gay é relmente caro"), ele passa a aplicar golpes, fraudar cartões de créditos e seguros, até ser descoberto e mandado pra cadeia, onde finalmente conhece o gentil e vulnerável Phillip Morris.

O corte seco, a edição e a fotografia ajudam a compor os objetivos do ótimo roteiro de John Requa e Glenn Ficarra, quando nos levam do ápice ao fundo do poço, ou do choque a risada. Mas isso de nada valeria se não fosse o ótimo elenco. É quase sempre regra dizer que comediantes são fantásticos em papéis dramáticos -- e nós bem sabemos que a carreira de Jim Carrei foi cimentada, em grande parte, na sua comédia física. E ainda que ele se esforce pra conter o seu impulso pro excesso em gesticular, talvez seja esse o seu melhor desempenho no cinema. A prova cabal de que Carrey rende muito quando bem dirigido. McGregor nos apresenta um Phillip Morris com sensibilidade, simpatia e vulnerabilidade. Destaque também para Rodrigo Santoro, que apesar das poucas aparições e falas, é o centro de uma das cenas mais bonitas do longa.

Seria demais afirmar que o filme é uma obra de arte. Ele não é perfeito. Mas é um história bonita e inteligente, que tem como pano de fundo um assunto que ainda é tratado de forma desajeitada (embora às vezes eficiente) pela indústria cinematográfica. Talvez seja mais estranho do que propriamente gay, evitando os temas trágicos de Brokeback Mountain, ou a melancolia estilizada presente em A Single Man, ou a agenda ativista de Milk. E é o que o torna especialmente cativante: a sua franqueza. Quando Steven diz a Phillip que vai jogar golfe com os colegas da empresa a sua reação é "Golfe? Mas você é gay!". O que temos aqui é uma boa tentativa de uma comédia leve em um fundo preto, com uma pitada de Billy Wilder, Ernst Lubitsch e Bill Forsyth - e que ainda assim consegue fazer de suas falhas algo interessante.

I Love You Phillip Morris! é uma história de amor do século 21 feita não só para adultos, mas para quem se preocupa com o sentimento humano. E deixa claro, de uma vez por todas, que o amor tem sua própria lógica estranha.

7 de junho de 2010

2046




(2046 - Os Segredos do Amor, de Wong Kar-way, 2004)

No final de In the Mood for Love, Chow sussurra um segredo que morre em um dos buracos da parede de um templo cambojano. Quando o vemos novamente em 2046, percebemos do que é capaz o poder transformador do amor -- da maneira mais negativa possível.

Nesse nosso reencontro, Chow parece ter sido atropelado por um caminhão: a recusa de um convite culmina no final de seu relacionamento com a bela Su, e o torna visivelmente inapto (num futuro próximo ou não) a permitir-se um affair mais sério novamente. E é aí que mora o paradoxo... Enquanto In The Mood for Love foi um mergulho de cabeça na história de um relacionamento único e ambivalente, 2046 nos entrega um Chow cafajeste, que se relaciona -- quase sempre da pior maneira -- com as mulheres. E são quatro belos exemplares: a 'dama de companhia' Bai Ling (a estonteante Zhang Ziyi, perfeita), a 'dançarina' Lulu (ou Mimi), a jogadora Su Lizhen (a que destrói o coração do nosso rapaz no início da fita) e a jovem Faye Wong, filha do dono do hotel (e que namora um menino japonês, aliás, namoro esse que entrega a Chow a única dica autruísta do filme). Agora mistura tudo e me diz se não temos aí o entrecho perfeito pra criar e defender teses e mais teses sobre este pequeno tesouro -- que ao exemplo dos outros filmes de kar-Way, não é facilmente digerido --, por horas a fio?

E já que eu cantei a pedra: acho que 2046 é menos uma sequência e muito mais uma releitura dos temas que envolvem In The Mood for Love. Muito semelhante ao modo em que o personagem de Tony Leung transforma suas experiências pessoais com as mulheres num futurista mas reconhecível homólogo ficcional para o livro que ele está escrevendo -- um jogo de repetição interminável.

2046 é um típico Wong Kar-way: visualmente acachapante (culpa da fotografia sublime do genial Christopher Doyle), com toda a irregularidade de continuidade e montagem que se tornam sua marca registrada, e a habilidade inigualável de acertar em cheio na trilha sonora (nos entregando entre outros, Vicenzo Bellini e Nat King Cole), complementando de forma precisa o que salta aos olhos do espectador. Ás vezes parece difícil conceber que em meio a todo esse aparente 'caos' audiovisual, o diretor chinês consiga se encontrar e fazer, inexplicavelmente, tudo funcionar. Ou quase tudo... O filme por vezes parece se alongar demais. O que tornou o meu desejo por um desenrolar mais dinâmico urgente, afinal de contas, tenho o direito de querer guardar um pouco do meu estado de humor romântico-melancólico pra próxima produção do diretor, não é mesmo? E Kar-way não gostaria de acabar com todo o meu estoque já escasso, de jeito nenhum.

Noves fora, ao menos tenho certeza de que, embora eu tenha dificuldade em dizer por onde 2046 me fisgou exatamente, fica claro que foi uma das viagens mais fascinantes que tive o prazer em fazer. Um estonteante e 'desorganizado' ensaio sobre amores perdidos, saudade, dor e lágrimas -- e que não poderia ser mais exepcionalmente belo.

3 de junho de 2010

Joheun-nom, Nabbeun-nom, Isanghan-nom



(aka The Good, the Bad, the Weird, Jee-woon Kim, 2008)


Seria insultar Leone se eu chamasse a fita de 'uma fusão ítalo-coreana', não é mesmo, minha gente? Talvez não quando a homenagem é despretenciosa. Aqui woon Kim (que emplacou três belezinhas na minha lista dos 25 mais: The Quiet Family, A Tale of Two Sisters e A Bittersweet Life) empresta todo o hype dos filmes de Indiana Jones ao cinema de Sergio Leone pra criar um western oriental que, ao contrário dos classudos filmes de Kurosawa, descamba muito mais pro lado pop superficial da coisa.

No filme, lançado em DVD o ano passado, somos apresentados a uma trupe -- um bandido sanguinário, um caçador de recompensas poser e um excêntrico ladrão de trens -- numa Manchúria ocupada pelos japoneses na década de 30. Todos em busca dum misterioso mapa do tesouro. Apesar de algumas semelhanças, woon Kim tá se lixando pro contexto histórico ou pra política. A regra máxima do diretor é fantasiar todo mundo de cowboy e orquestrar tudo como se fosse o proprio Enio Morricone -- o que resulta em explosivas sequências de ação muito bem coreografadas e dirigidas.

Talvez o que falte à fita é o peso mítico que Leone ou Kurosawa deram a suas epopéias pop, por exemplo. Sem esse elemento x, The Good, the Bad, the Weird (batizado de Os Invencíveis por aqui) não passa do "próximo blockbuster de verão que você certamente não deixará de ver". Depois de uma hora de projeção, a boa edição, o apuro visual e o caos habilmente coreografado (frutos da boa e confiante direção de woo Kim e dos ótimos efeitos especiais) passam a não fazer mais sentido. Seria como se alguém decidisse esticar um episódio engraçadão de Comichão e Coçadinha.

No fim, a gente acaba sentindo uma ponta de saudade de Três Homens em Conflito... Mas nada que torne a experiência menos divertida.

31 de maio de 2010

On air



Nestas últimas semanas muita coisa andou passando pela minha cabeça... A mais bacana de todas foi a idéia que tive de voltar a falar (ou tentar falar) sobre cinema neste espaço aqui. Se por acaso vocês se deram o trabalho de olhar ao redor, puderam reparar que a casa tá de roupa nova, e que eu tô mesmo chamando toda a responsabilidade do conteúdo do blog pra moi -- a partir de agora, claro.

Mas... agora que arrumei a casa, não consigo pôr as idéias em ordem! E idéias em ordem, pro que eu me proponho aqui, minha gente, é tudo nessa vida. Medo! Eu tô bem enferrujado, e não tenho sido constante como a anos atrás com o cinema... ainda assim vou tentar, pro desespero de alguns.

Espero voltar com algo mais substancial que desabafos até o final da semana.

É bom estar de volta... Acho.

8 de agosto de 2008

Novo Blog

Pronto! Não demorou muito. Já está no ar o...

Dementia 13

31 de julho de 2008

Despedida...

Muito bem, meus caros amigos, a verdade é que não sinto mais prazer nenhum em escrever sobre os filmes que eu vejo. Não quero ficar me justificando e nem gostaria de fechar o blog, mas já é segunda vez que desabafo o meu desanimo por aqui.

Um dos motivos é que o blog não é somente meu e nunca foi. Eu abri com um amigo, o Felipe Mappa, um excelente escriba, e que resolveu abandonar o blog há quase um ano, ou mais. Eu tenho carregado isso aqui nas costas como se fosse meu, mas eu nunca me senti a vontade. Tanto que já tentei abrir outros blogs, o Horror Express, o Cine Groove, mas manter dois blogs sobre o mesmo assunto é besteira. Sei que isso não é motivo pra abandonar um blog, mas perdi completamente o tesão de escrever para um domínio chamado Cine Art que era uma idéia de dois amigos cuja proposta já perdeu o sentido.

Hoje, eu me vejo na obrigação de postar alguma coisa apenas pra manter o blog atualizado ao mesmo tempo em que a falta de inspiração me atormenta e prejudica a qualidade dos meus textos, que nunca foram de boa qualidade. O fato é que pra escrever um texto medíocre como este aí em baixo de Cinturão Vermelho, eu gastei um tempo desgraçado. Antes eu escreveria algo do mesmo nível, mas em questão de minutos. Há meses que isso vem acontecendo, não é de agora. Não sei se é uma crise de inspiração, mas cansei.

Infelizmente, e escrevo com sinceridade, porque já são mais de dois anos que abrimos este espaço e quase cinco usando o mesmo nome, o Cine Art não voltará a ser atualizado por mim. Encerro aqui o “trabalho” que prestei na exteriorização da paixão que eu tenho pelo cinema e que se tornou um fardo. Se o Felipe quiser algum dia voltar a atualizar, eu ficaria grato e com certeza voltaria a colaborar aqui, pois tudo teria sentido novamente.

Com certeza não vou abandonar os blogs que eu visitava e nem mesmo conseguirei ficar muito tempo sem escrever, isso eu garanto, nem que seja um monte de porcaria como tem sido, mas definitivamente será em outro espaço. Eu aviso quando esse dia chegar.

Ronald Perrone

Cinturão Vermelho

Cinturão Vermelho (2008), de David Mamet

Já que o Futebol brasileiro não anda muito bem das pernas, David Mamet coloca o Brasil como o país do Jiu-Jitsu, e talvez seja isso mesmo atualmente. Além de escalar atores brasileiros para compor o elenco, o entrecho gira em torno do esporte em questão, aliás, o próprio diretor é praticante, mas o que importa mesmo e o filme realmente concentra-se é na trajetória de Mike, um professor de Jiu-Jitson que possui uma integridade moral inabalável colocada à prova durante todo o tempo. Dívidas e corrupção são apenas dois itens de uma porção que o personagem enfrenta. A redenção vindo à base da porrada é algo meio estranho de se ver num filme que aparentemente caminhava por um outra direção, mas funciona muito bem, além de colocar de volta o nome do diretor entre os grande diretores do cinema independente americano.

30 de julho de 2008

Merchan: O Carranca

Não sei se vocês se lembram do Carranca. Eu publiquei alguns textos dele aqui no blog e a sua intenção sempre foi de causar controvérsia tecendo suas opiniões negativas sobre os filmes que a maioria gosta. Agora ele ataca com um blog próprio e ninguém vai ser capaz de segurar o Carranca!

Quem quiser fazer uma visitinha, é só entrar aqui.

28 de julho de 2008

Punisher: War Zone

Punisher: War Zone


Beatrice Cenci


Beatrice Cenci (1969), de Lucio Fulci

Dentre todas as obras cinematográficas cometidas pelo pai do gore, o diretor italiano Lucio Fulci, esta aqui era justamente a sua preferida, mesmo não tendo a mesma violência extrema de filmes posteriores nem ser do gênero que o consagrou, ainda assim, Beatrice Cenci não deixa de ser um de seus trabalhos mais perturbadores. A história se passa na Itália do séc. XVI onde Beatrice, a filha adolescente de um nobre senhor feudal é abusada sexualmente pelo próprio pai. Sendo assim, ela decide assassiná-lo com a ajuda de algumas pessoas, incluindo um criado interpretado pelo grande ator cubano Thomas Milian. O filme inicia após esses acontecimentos quando uma investigação, à base de tortura, por algumas vezes, é realizada para apurar o caso, o que permite uma incrível liberdade narrativa com o material. As cenas de tortura compensam um pouco a ausência de violência e gore habitual, mesmo que isso não seja uma falta, já que o filme inteiro é uma aula de direção, enquadramento e composições estéticas que explicam a obsessão do diretor com o próprio filme.








25 de julho de 2008

Cinzas Que Queimam

Cinzas que Queimam (1955), de Nicholas Ray

Ray faz dois filmes dentro de um em Cinzas que Queimam. Logo no início, somos apresentados ao protagonista, o único de três policiais que se arruma para mais uma jornada de trabalho sem ajuda de uma esposa. Ele se arruma sozinho, não tem mulher nem filhos, é o policial solitário e amargurado pelo passado, típico herói do noir. A primeira metade de projeção, onde o tal policial, vivido por Robert Ryan, investiga um crime, o diretor constrói às bases do noir, com direito a todos os elementos caracteristicos, muitas ruas escuras, sombras estilizadas e uma direção primorosa que chega a utilizar de forma inusitada a câmera na mão em algumas seqüências. Até aqui já teríamos material suficiente para um ótimo filme.

Mas a instabilidade emocional do próprio personagem faz com que a narrativa tome outra direção e vá parar num cenário campestre, uma paisagem coberta de neve onde o policial é enviado e inicia ali um novo caso, uma outra investigação e um outro filme. Gradativamente, o noir já estabelecido cede lugar para um romântico melodrama policial com a entrada em cena de Ida Lupino, uma cega cujo irmão é procurado por um crime e por quem o policial se apaixona (pela mulher, não o irmão) e acaba revendo seus conceitos éticos na maneira de agir.

Essa catarse faz muito bem ao filme, que foge às regras do noir tradicional e torna-o belo. Ray possui domínio tanto nos ambientes urbanos sufocantes, quanto nas paisagens campestres a céu aberto. A direção de atores é ótima, eles próprios estão muito bem, principalmente Ida Lupino. Aliás, ela chegou a dirigir algumas cenas enquanto o diretor esteve doente, algo que não faz muita diferença no resultado, já que tudo funciona perfeitamente, até mesmo o final otimista imposto pelo estúdio.

23 de julho de 2008

Os melhores filmes do primeiro semestre!

A Liga dos Blogues Cinematográficos já está preparando sua lista dos melhores filmes do primeiro semestre.
Como ainda não havia publicado a minha lista como fiz nos dois anos de existencia do blog, segue a lista que eu enviei pra Liga com os meus filmes favoritos em ordem de preferência:

1. Sangue Negro, de P. T. Anderson
2. Onde os Fracos não têm Vez, Ethan e Joel Coen
3. Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto, Sidney Lumet
4. Senhores do Crime, David Cronenberg
5. A Espiã, Paul Verhoeven
6. 4 meses, 3 semanas e 2 dias, de Cristian Mungiu
7. Wall-e, Andrew Stanton
8. Paranoid Park, Gus Van Sant
9. Juno, Jason Reitman
10. O Gangster, Ridley Scott

22 de julho de 2008

House of Bamboo

House of Bamboo (1955), de Samuel Fuller

Um dos filmes mais brilhantes de Fuller, principalmente porque ele parte de uma trama policial passada no Japão que justifique preencher todo o scope com imagens refinadas esteticamente que faz questão de filmar ao ar livre nas locações, nas ruas movimentadas de Tóquio em plena década de 50 (tornando-se o primeiro filme de Hollywood a filmar no local), ao invés de utilizar estúdio como era habitual, revelando um estilo de direção que ainda viria aparecer algum tempo depois na Nouvelle Vague francesa. Me agrada muito as cores cruas e a cinematografia realista de Joe MacDonald, principalmente nas externas.

Robert Stack interpreta um agente americano trabalhando sob disfarce em Tóquio para se infiltrar numa quadrilha chefiada por um ameicano, vivido por Robert Ryan, que está incrível como vilão. Aparentemente, Fuller queria Gary Cooper no lugar de Stack, mas a sua presença não deixaria de ser notada nas ruas de Tóquio por causa da fama consolidada. Mas Robert Stack, um ator menos popular serviu perfeitamente no papel do herói humanista Fulleriano.

E agora que aprendi a brincar de tirar screenshots, não pude resistir:







20 de julho de 2008

Batman - O Cavaleiro das Trevas


Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), de Chistopher Nolan

Heath Ledger realmente estava no ápice de sua arte de interpretar e eu não ficaria surpreso se ganhar o Oscar pelo seu trabalho em O Cavaleiro das Trevas. Se é que podemos chamar a sua encarnação do Coringa somente de interpretação. Ledger vendeu a sua alma ao personagem. O que ele apresenta, desde a sua primeira aparição em cena (com a sádica mágica de fazer a caneta desaparecer) vai além dos limites da representação psicótica do mal. É um monstro cujas ações levantam dilemas morais diante de seus inimigos. Ao longo de todo o filme, ele concebe engenhosas situações que forçam Batman, o Comisário Gordon e o promotor Harvey Dent a tomarem impossíveis decisões de ética.


Jack Nicholson já era. Ledger definiu o Coringa para o cinema. Esperem no mínimo vinte anos antes de levar o personagem às telas de novo. Talvez até lá surja alguém com capacidade dar a vida por um papel como este.


Tirando o Coringa, o que resta em O Cavaleiro das Trevas é um ótimo de filme de ação que demonstra o amadurecimento de Nolan ao conduzir com maestria uma trama grandiosa, muito mais complexa que o habitual, repleta de personagens importantes que possuem o devido espaço durante a narrativa. Além disso, todas as idéias do diretor que deram certo e errado em Batman Begins, em relação à sua visão realista, entram em perfeita sintonia em O Cavaleiro das Trevas, criando um universo verossímil onde um homem fantasiado de morcego pode sair à noite para combater o crime.


Todas essas questões sobre verossimilhança e os desdobramentos da história com os personagens têm profundidade suficiente para mais uns 10 parágrafos. Recomendo o texto do amigo Leandro Caraça, que escreveu em seu blog as melhores impressões que eu li sobre o filme.

18 de julho de 2008

Watchman Trailer

A graphic Novel Watchman, escrita por Alan Moore, é o tipo de material que deveria ser colocado num altar para que todas as noites acendam uma vela. Não posso julgar um filme que ainda não vi, mas até que o primeiro trailer da adaptação ficou interessante. Só espero que Zack Snyder não decepcione e entregue um filme que no mínimo justifique a adaptação.


Amantes Constantes


Amantes Constantes (2005), de Philippe Garrel

Finalmente parei pra assistir o maravilhoso Amantes Constantes, filme de 2005 do francês Philippe Garrel. Embora seja o único filme acessível do diretor aqui no Brasil atualmente, Garrel iniciou sua carreira lá nos anos 60 com um estilo bastante peculiar ficando conhecido como um enfant terrible do cinema francês. Já consegui outros filmes do diretor via downloads pela internet, mas por enquanto fiquemos com os Amantes Constantes, uma belíssima obra de arte que me surpreendeu muito pela sua qualidade técnica e ousadia.

É uma experiência cinematográfica das mais significantes acompanhar este épico de quase três horas de duração sobre as manifestações de maio de 1968 em Paris vista pelo ponto de vista de vários personagens, mas em especial de um poeta vivido pelo filho do diretor, o ator Louis Garrel. Apesar de servir como excelente registro das manifestações, Garrel acaba desmistificando a representação do jovem revolucionário que após os momentos de revolta, são apresentados como pessoas de esperança duvidosa, ociosas e drogadas vivendo numa furada idealização artística.

Um dos principais atrativos é a riqueza visual filmada num preto e branco expressionista pelas lentes do cinematógrafo William Lubtchansky e, por vezes, acompanhada do piano minimalista de Jean-Claude Vannier recriando de forma realista e cristalina não só a ambientação de um período passado, mas uma narrativa quase documental sobre os desdobramentos das situações vividas naquele momento, principalmente o tratamento dado ao amor que nasce entre o poeta e a escultora nesse universo.

A câmera de Garrel trabalha admiravelmente acompanhando as evoluções sentimentais das quais os personagens se entregam, não somente os dois pombinhos, que é o maior leitmotiv da narrativa, mas todos os personagens em questão em suas andanças, conversas vazias, festas monótonas regadas de ópio e na dança alucinante ao som do The Kinks até chegar ao desfecho alegórico, melancólico e perfeito. O ritmo lento e a duração podem desagradar o espectador desavisado, mas é de uma ousadia grandiosa, já que dificilmente vemos nos dias de hoje um diretor com coragem de lançar um filme de três horas de duração, preto e branco e poeticamente lento como Garrel faz em Amantes Constantes.


15 de julho de 2008

Deep End

DEEP END (1971), de Jerzy Skolimowski: Os filmes americanos dos anos setenta podem até serem responsáveis por desencadear uma das mais importantes explosões estéticas do cinema, mas um filme como o brilhante Deep End comprova que o cinema europeu nunca perdeu a força. Com tons de humor negro, trata com autenticidade temas sobre descobertas sexuais e do amor desenfreado sem nunca cair no senso comum dos filmes adolescentes americanos. Além de ser uma experiência estética fascinante acompanhar a câmera energética do diretor polonês Jerzy Skolimowski se movimentando pelas ruas atmosféricas de uma Londres cinzenta no inverno.

12 de julho de 2008

Um Mundo Perfeito (1993), de Clint Eastwood

Galã de filmes convencionais, Kevin Costner me surpreendeu muito neste trabalho do velho Clint que, inicialmente, queria Denzel Washington como protagonista. Não seria tão surpreendente, já que a cara de bobo e o olhar distraído de Costner contribuíram bastante para o tom ambíguo que o seu personagem exigia, o que poderia soar caricato em Denzel.

O filme é um road movie onde Butch (Costner), um ladrão que escapa da penitenciária, acaba tomando como refém um garoto de uns 8 anos para garantir a sua fuga, o que leva à uma jornada onde bandido e refém estabelecem uma relação que evoca seus passados, toca dois universos diferentes e estrutura um filme muito mais complexo e interessante que aparenta ser.

Sem dúvida alguma, é um dos trabalhos mais maduros de Clint Eastwood que acerta em cheio ao colocar como peça fundamental a relação dos dois personagens. A estrutura narrativa que rege todas as situações entre Butch e o garoto é de uma sutileza que poucos diretores americanos teriam a sensibilidade de conceber.

Nas mãos de um Spielberg (que originalmente estava escalado para assinar a direção) poderia se considerar um desastre. Principalmente porque um dos temas que o filme aborda é justamente uma das obsessões do diretor de E.T.: trauma fraterno. Ambos os personagens centrais o têm. Mas enquanto Clint possui sabedoria e sutileza suficiente para abordar essas questões, spielberg já banalizou o tema em seu currículo.

8 de julho de 2008

Notas breves...

Funny Games USA (2007), de Michael Haneke: Haneke realizou novamente um filme com força suficiente para chocar o público com as situações extremamente incômodas e com as inúmeras e delicadas questões que aborda (banalização da imagem, violência, etc), mas para quem já viu a versão original, não passa de uma reprise.

WALL·E (2008), de Andrew Stanton: A Pixar em seu ápice cinematográfico, tanto em termos de estrutura e linguagem narrativa quanto na explosão estética da animação em computação gráfica.

O Incrível Hulk (2008), de Louis Leterrier: Ainda não havia comentado sobre o filme. Não há duvida que centrar a narrativa na ação é muito mais cabível para os produtores cujo objetivo era de arrecadar mais moeda, diferente do Hulk psicológico de Ang Lee. E ainda funciona como ótima diversão.

Conan – O Bárbaro (1982), de John Millius: O grau de exigência com os filmes, com certeza aumentou desde a ultima vez que assisti essa belezura na infância. Revê-lo depois de tanto tempo superou todas as exigências. É tudo o que um Senhor dos Anéis da vida poderia ter sido, mas não conseguiu nem chegar perto.

F for Fake (1974), de Orson Welles: Em um de seus filmes mais pessoais, Welles vomita todo o desabafo que estava entalado desde que entrou no ramo das artes, manipulando um joguinho de "verdadeiro ou falso" com o seu público desnorteado de tanto vigor cinematográfico. F for Fake é apenas mais uma, dentre as tantas obras primas de um dos maiores diretores americanos.


6 de julho de 2008

The Addiction (1995), de Abel Ferrara


Esta semana assisti essa belezura do Abel Ferrara, e apenas reafirmo que, provavelmente, se trata do seu filme mais metafísico-filosófico-religioso sobre o mal enraizado na natureza humana, tema que já faz parte do repertório de obsessões que o diretor explorou em muitos trabalhos. E mesmo se existissem vampiros (mas sei lá, vai que existe), definitivamente não seriam tão realistas quanto à abordagem de Ferrara sobre o assunto. Um dos melhores filmes do diretor.

4 de julho de 2008

Filmes de Junho

Lista dos filmes do mês de Junho com revisões em negrito:

Robocop (1987), de Paul Verhoeven ****
Capacete de Aço (1951), de Sam Fuller *****
Baionetas Caladas (1951), de Sam Fuller ****
Profissionais do Crime (2001), Johnnie To e Ka-Fai Wai ***
Quem Bate a Minha Porta? (1967), de Martin Scorsese ***
Fim dos Tempos (2008), de M. Night Shyamalan **
O Incrível Hulk (2008), de Louis Leterrier ***
Funny Games USA (2007), de Michael Haneke ****
Cockfighter (1974), de Monte Hellman ****
Fausto (1926), de F. W. Murnau ****
Os Aventureiros do Bairro Proibido (1986), de John Carpenter ****
Conan - O Bárbaro (1982), de John Millius ****
F for Fake (1974), de Orson Welles *****
Zombie Strippers! (2008), de Jay Lee ***

2 de julho de 2008

Bainoetas Caladas (1951), de Samuel Fuller


Mais um bom filme de guerra de Sam Fuller. O roteiro desta vez faz um estudo de personagens menos intenso em relação a Capacete de Aço, embora ainda seja um filme bastante psicológico. Basta acompanhar o drama do cabo (Richard Basehart) com fobia de responsabilidade. É a personagem mais humana, tanto em construção quanto em essência e seus conflitos mentais são lapidados à medida em que seus superiores são abatidos em batalha e acaba ficando responsável por todo pelotão.


Baionetas Caladas foi rodado no mesmo ano que Capacetes de Aço, ambos têm como pano de fundo a Guerra da Coréia, mas é justamente neste aqui que Fuller dá uma aula de como orquestrar seqüências de ação que garantem um clímax energético via montagem dinâmica e muitos closes expressivos, gerando um clima tenso que estrutura toda a narrativa durante o filme.

26 de junho de 2008

Muito trabalho, projetos pessoais e da faculdade têm me tomado muito tempo, inclusive pra cuidar da criança aqui. A delonga foi por causa disso e peço desculpas por ficar mais de uma semana sem atualizar. Mas até que consigo ver um filme ou outro nos fins de semana, como essa belezura aí em baixo:

Cockfighter (1974), de Monte Hellman: Não chega ao nível de Two-Lane Blacktop, mas é tão bom quanto, e ainda prova que Monte Hellman teve crucial importância para o cinema independente americano nos anos 60 e 70. Cockfighter é uma obra subversiva que parte do conceito do homem em crise tentando superar seus limites trazendo um excelente Warren Oates encarnando um treinador de galos de briga.

As cenas dos galos se enfrentando violentamente em contraste com a frieza dos treinadores são impressionantes e causam um choque visual repugnante, embora reze a lenda (segundo o nosso amigo Leandro Caraça) de que Hellman se recusou a filmar as cenas dos galos brigando e o produtor Roger Corman chamou o diretor Lewis Teague pra fazer o trabalho sujo.

Mas o melhor de Cockfighter é a presença de Oates como protagonista. Sua personagem faz voto de silêncio depois de ouvir que fala e bebe demais e durante quase toda a projeção carrega o filme com expressão corporal e muita presença, agindo sempre em silêncio para atingir seus objetivos da mesma forma que seus galos de briga. Oates foi um dos atores mais virtuosos que já entrou na frente de uma câmera, sem sombra de dúvida (e é uma pena ser tão esquecido pela nova safra de cinéfilos).